Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

Aos padres que não são pedófilos

1. O que está a acontecer na Igreja Católica é um escândalo.

Não tem a ver apenas com os números já divulgados pela comissão liderada por Pedro Strecht e Daniel Sampaio - 17 queixas enviadas para o Ministério Público por envolverem padres no ativo.

Isto para além da validação de mais de 300 queixas.

Fora o que ainda não se sabe.

Fora as pessoas que não tiveram coragem de se expor.

E todos os membros do grupo de trabalho dizem o mesmo: é sempre muito mais o que não se sabe do que aquilo que se sabe.

Para já não falar dos esquemas de proteção.

Dos encobrimentos.

Dos bispos que fecharam os olhos.

A Igreja portuguesa não é diferente das outras.

Um pouco por todo o mundo os números assustam.

Os esquemas assustam.

Milhares, muitos milhares de crianças, foram abusadas por padres.

2. Em Portugal não tem sido fácil à comissão fazer todo o trabalho que necessita.

Por muitas desculpas que se peçam, por muitos atos de contrição que se façam, ficará sempre a ideia de que na casa de Deus - mesmo para quem N"ele não acredita - se praticaram e praticam atos hediondos.

Se o Diabo existe é disso que estamos a falar.

Mas conheci muitos padres que se sacrificaram em lugares inóspitos e terríveis.

Gente que viveu ou vive em enormes dificuldades para que crianças possam ter o mínimo dos mínimos.

Conheço quem faça o melhor.

Que acredita que a missão mais nobre de um sacerdote deve ser respeitada.

Sei que a maioria dos padres não é pedófila.

Parece até estranho dizer isto por ser uma coisa tão óbvia, mas por vezes neste tempo de tantas facas longas, de tanto ressentimento, de tanto ódio, convém dizer coisas que de tão óbvias parecem enormidades.

Repito:

A larguíssima maioria dos padres não é pedófila.

Não se insinua.

Não tenta ganhar vantagens sexuais ou eróticas sobre as pessoas que estão a seu cargo ou sob a sua influência.

Mas, em nome da verdade, é preciso dizer uma segunda coisa óbvia.

É fundamental que sejam essas pessoas a criar as condições para que a Igreja possa livrar-se dos pedófilos que por lá andam.

Devem denunciar o que sabem.

Devem abrir caminho para que a comissão perceba e separe o trigo do joio.

Devem abrir as janelas para se respire e se evaporem ou atenuem as sombras.

3. Imagino que seja insuportável o peso da desconfiança que se abateu na Igreja Católica.

Imagino também que para cada um de vós comece a tornar-se um peso desmesurado.

Mas não menorizem, não sacudam para debaixo do sofá por que à primeira revoada de vento o lixo vos contaminará para sempre.

Sobretudo em relação aos bispos - que muitas vezes parecem ser escolhidos a dedo entre os melhores burocratas - sobretudo em relação a esses, por favor não percam a oportunidade de respeitar o que a vida vos propôs.

Ou, se preferirem, o que Deus vou colocou no caminho.

Por que concordaremos todos que é difícil imaginar um crime pior do que alguém abusar sexualmente de uma criança.

Concordamos nisso?

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