Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Chalana está agora no lugar que merece

1.

Chorei quando ouvi a notícia de que morrera.

Como é possível a morte de um ídolo?

(a morte do meu primeiro ídolo)

A estrela do Benfica quando comecei a ver futebol. O meu tio Manel, irmão mais velho de minha mãe, levava-me pela mão ao antigo Estádio da Luz e aquele pequenino número 10, aquele português de bigodes fartos, endoidecia os adversários com o seu pé esquerdo.

E depois na seleção portuguesa.

Lembram-se de 1984?

Parecia o Astérix capaz de nos vingar de todas s humilhações, de todas as bocas e anedotas sobre portugueses, sobre portugueses com bigode, sobre portugueses pobres que faziam pela vida.

2.

Vieram depois as lesões.

Os que se aproveitaram.

Os que fizeram pouco da sua generosidade, veio o habitual.

Mas foi na dificuldade que Fernando Chalana ainda reforçou mais o que era por dentro. Já não era o pé esquerdo e o génio futebolístico, era qualquer coisa maior, a sua bondade com as crianças que passou a treinar no Benfica, a sua generosidade com o mundo, a sua ausência de ressentimento com o mal que lhe tinham feito.

3.

Posso contar-vos uma história?

Na apresentação da biografia, "Chalana - A Vida do Génio", o Fernando (sempre em silêncio) teve ao seu lado o também extraordinário Bernardo Silva.

Bernardo, no seu jeito humilde de anti vedeta, decidiu contar uma história. Qualquer coisa como isto: "Sabem, quando era juvenil ninguém acreditava em mim - até eu começava a duvidar. Um dia, estávamos num estágio - bateram-me já muito à noite na porta do meu quarto. Fui abrir. Era o mister Chalana (na altura adjunto dos juvenis do Benfica). E ele disse-me o que me deu a força necessária para chegar até aqui".

4.

E o que Chalana disse ao miúdo Bernardo?

Isto.

"Eu acredito que és especial, Bernardo. Acredito no teu talento. És o meu Messizinho e serás um dia um grande jogador. Queres apostar?"

Bernardo tinha 15 anos e nunca vira jogar Chalana. Na sua cabeça de adolescente passava-lhe a ideia de desistir do futebol. Não jogava na equipa de juvenis do Benfica, os treinadores principais não confiavam - era magrinho, pequenino, inconsequente e pouco dado aos sacrifícios do futebol.

Quantas vezes já não nos aconteceu o mesmo? Pensarmos em desistir porque nos atiram para baixo, menorizam e humilham? E quantos de nós tiveram a sorte de alguém nos bater à porta e dizer que, afinal, valemos a pena? Que afinal alguém, num lugar qualquer do mundo acredita que nos cumpriremos, que um dia isso será reconhecido?

5.

Fernando Chalana não disse uma palavra na apresentação da sua biografia por culpa de uma doença degenerativa.

E partiu hoje.

É bem capaz de ter sido chamado para uma qualquer equipa de anjos.

Uma equipa feita de gente maior, com coração grande e ingenuidade que, naquele campo de estrelas que já não são daqui, é uma marca que distingue os bons, os que valem a pena, os que acreditam nos outros sem que nada de mal lhes possa acontecer por acreditarem.

Fernando Chalana está no lugar que merece.

Obrigado, pequeno génio.

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