Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Clara de Sousa e Luciana Abreu num país onde andamos todos ao mesmo

1.

Uma parte do país parou para ver os Globos de Ouro.

A SIC esfrangalhou a concorrência com uma média de espetadores de um milhão e meio - o que é obra!

No Coliseu dos Recreios, em Lisboa, o mundo da comunicação esteve em peso.

O jornalismo misturou-se com entretenimento.

As estrelas populares com as estrelas elitistas.

Os personagens dos reality shows com as figuras de referência.

Escritores, atores, políticos, jornalistas e influencers, banqueiros e bancários, gente talentosa e sem talento, jovens turcos e veteranos de muitas guerras.

Todos e todas passaram pela carpete vermelha. Todos e todas, pobres e ricos, respeitados e por respeitar, foram fotografados ou fizeram-se fotografar.

2.

Noutra vida fui nomeado em três anos seguidos pela autoria de programas de televisão.

Nunca ganhei, mas estive lá.

E fui fotografado com um fato alugado numa loja no Arco do Carvalhão, perto do Centro Comercial das Amoreiras.

Senti-me deslocado, como sempre acontece, mas estive lá.

E não tenho a certeza absoluta de que não marcaria presença se a SIC me convidasse para estar - julgo que não estaria, mas não quero cometer a indelicadeza de jurar o que não poderei provar.

3.

Portugal é um país pequenino.

Um país onde todos e todas se conhecem.

Logo, um país onde a liberdade de poder dizer o que se pensa é limitada pelo impacto de, no dia seguinte, termos de estar a almoçar com a pessoa que criticámos no dia anterior.

E sendo um país pequenino é também um país ainda provinciano.

Em que gostamos, nem que seja uma vez por ano, de vestir de gala - afinal, não somos nem mais nem menos do que os outros.

4.

Ver Clara de Sousa a apresentar os Globos em que Luciana Abreu chegou escoltada pela polícia.

Ver Rui Nabeiro a cumprimentar as irmãs Patrocínio.

Ver Ivo Lucas no mesmo palco de Catarina Vasconcelos, realizadora de "Metamorfose dos Pássaros", filme de autor que terá sido visto por um por cento da audiência dos Globos de Ouro.

Não me entendam mal.

Porque ver tudo aquilo é o melhor dos Globos de Ouro.

A mistura do sagrado e do profano.

Do popular e do erudito.

Da comunicação de massas e da comunicação fechada dentro de si própria é o segredo do sucesso.

5.

O meu ponto não é esse.

É outro.

Recordar o meu amigo (e mestre) Eduardo Prado Coelho que um dia, no final de um almoço na Gôndola me confessou que o problema de Portugal é que ele, em alguns momentos, gostava de ser a Margarida Rebelo Pinto por um dia.

Mas ao mesmo tempo apostava que a Margarida, que acabara de escrever "Sei Lá", um dos livros que mais vendeu na história da edição em Portugal, também não se importaria de ser Eduardo Prado Coelho por umas horas.

6.

Lembrei-me do Eduardo e da sua perfeita síntese.

Os que têm o povo adoravam poder ser respeitados pelas elites. Os que têm as elites, mesmo que não confessem, adoravam poder ser abraçados pelo povo.

Esse é o segredo do sucesso dos Globos de Ouro.

E a prova da nossa dimensão.

Por uma noite os cultos, com caras mais ou menos fechadas, podem gozar um bocadinho do glamour.

E os que vivem da e para a superfície, como sempre esfuziantes, podem ser fotografados com os intelectuais.

No fundo, andamos todos ao mesmo.

O melhor é admiti-lo.

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