Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Cristiano Ronaldo, manda-o à merda

1.

Não me levarás a mal que te trate por tu.

Sei que nunca estivemos juntos, que nunca sequer nos cruzámos em lado algum, mas não me soa bem utilizar o você.

Porque tu és uma parte do que somos. Um motivo de orgulho neste país que amamos e desprezamos com igual paixão.

Não me esqueço de tantas coisas que foram importantes. A tua arrogância, tão passível de crítica, sempre foi vista por mim de uma outra maneira, a prova de que não estavas aqui para ser pisado ou humilhado.

A tua autoconfiança, o teu achar que podes sempre ser mais, conseguir mais, não te contentar com menos, sempre foi a prova de que os portugueses não estão condenados a ser párias, atores secundários ou figurantes.

2.

Querido Cristiano Ronaldo

Cada golo teu.
Cada campanha publicitária.
Cada milhão de novos seguidores.
Cada recorde.
Cada indignação, cada entrevista, cada erro até é o resultado do que és, do que te fez chegar aqui, do sofrimento que trazes desde que te lembras, da obsessão de que és dono de ti próprio.

3.

Quando falas és ouvido.

Não há ninguém a quem deixes indiferente.

Amam-te e odeiam-te, mas sempre nos teus termos, sempre nas tuas condições. Desenhaste a tua vida com o que achavas que a tua vida deveria ser, não com aquilo que outros achavam que era o melhor para ti.

Hoje, dia em que a seleção portuguesa se despede do país com um jogo no teu Estádio de Alvalade, os olhos do mundo voltam a estar em ti.

Depois da explosiva entrevista em que decidiste romper com o Manchester United o planeta torna a estar preso naquilo que farás no próximo Campeonato do Mundo.

Uns a babarem-se para que falhes, para que atires ao lado, para que andes a passo e possam dizer que estás velho, que já não és o mesmo, que eles bem diziam.

Outros a quererem muito que tu sejas, pela enésima vez, Cristiano Ronaldo.

O miúdo que estava destinado a não nascer, mas que o instinto final da tua mãe permitiu ver o mundo.

O miúdo que sofreu com o alcoolismo do pai, mas que fez disso uma arma para nunca desistir.

O miúdo que nasceu numa casa muito pobre nos arredores do Funchal, mas que hoje oferece o seu nome ao aeroporto onde chegam todos os dias os milionários que não fazem a mais pequena ideia do que é a miséria.

O miúdo que veio viver para Lisboa sozinho aos 12 anos, o que chorava pela solidão e por o gozarem cada vez que abria a boca. Mas que hoje fala várias línguas sem que se note qualquer pronúncia.

O miúdo que se tornou o melhor do mundo.
Cinco vezes o melhor do mundo.
O maior goleador da história do futebol, da história das seleções, o mais internacional, o que nunca disse não à seleção portuguesa.

E poderias tê-lo feito, Cristiano.
Quem te poderia levar a mal?

És multimilionário, não precisavas de mais nada, mas estás em estágio, vais outra vez cruzar o teu destino com Portugal.

4.

Obrigado por isso.
Obrigado por hoje, no jogo com a Nigéria, poder levar o meu filho Afonso ao estádio para te ver.

Parece que não vais jogar, ouvi ontem o selecionador.

Mas sabes, ele tem cinco anos.

E ainda agora lhe perguntei, estás pronto Afonso?

Sabes o que ele me respondeu?

Estou pai, estou pronto para ver o Cristiano Ronaldo.

É isso, Cristiano.

Segue em frente.
Rebenta com tudo no Catar.

Finta outra vez o destino.

E quanto ao holandês que te treinou nestes meses, só me apetece rir. De que modo se pode comparar o que és a um miserável rodapé da história do futebol?

Como disse o Alberto João Jardim, manda-o à merda.

Sei que já mandaste, mas não há como reforçar.

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