Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Diogo Infante e o seu marido

1.

Diogo Infante tem poucas fotografias com o marido.

Conheceram-se num qualquer espetáculo, talvez no Teatro Nacional ou noutra circunstância, não sei.

Casaram-se em 2013, mas dois anos antes já tinham adotado uma criança, o Filipe - que hoje tem quase 20 anos.

2.

Diogo Infante e Rui Calapez são homens de sucesso.

Diogo é um dos maiores atores portugueses.

Rui um dos poucos agentes de referência.

Na semana que passou, excecionalmente, Diogo falou do marido, do quanto o amava, do quanto lhe devia, da vida que celebraram como se daqueles dois caminhos tivesse nascido um terceiro, o caminho que construíram em comum.

Diogo falou por ser o aniversário do Rui.

Mas com a cautela própria de quem fala de alguém que não é como ele - o que Diogo tem de exposição tem o Rui de discrição, o que o Diogo tem de necessidade de oferecer ao mundo tem talvez o Rui de vontade de reduzir o mundo de forma a caber num círculo de intimidade.

3.

Diogo falou algumas vezes do filho adotivo.

Falou muito menos vezes, duas ou três, da relação com Rui Calapez.

Talvez nos dias do casamento e agora.

Rui nunca falou.

Do casamento, da relação ou do filho adotivo.

Por isso, fiquei agradecido e surpreendido quando o Diogo nos confessou que a sua relação ultrapassara os trinta anos - uma relação que, como todas, teve altos e baixos, momentos de dúvida, inquietações, pontos e vírgulas, perigo de parágrafos.

Mas resistiu.

Trinta anos de vida em comum, é obra.

4.

Este postal não tinha de ser escrito.

Afinal, não deveria ser nada de mais.

O amor está em crise, as relações ainda mais, mas existem muitos casais que resistem uma vida de mão dada.

Só que no mundo aquilo que é óbvio não é tão óbvio assim para muitos de nós.

Vemos as mensagens de ódio - mesmo em Portugal foi aterrador ver a excelente reportagem "Quando o ódio veste farda", assinada na SIC por Pedro Coelho, Paulo Pena e Filipe Teles.

Quase 600 polícias e militares da GNR a veicularem mensagens de ódio contra políticos, contra pretos, ciganos, chineses e monhés.

Contra homossexuais também.

"Paneleiros" como escrevem em várias mensagens ameaçadoras.

5.

Ou em vários textos sobre a homossexualidade que vamos vendo, aqui e ali, com o pretexto do Mundial do Qatar em que os gays são proibidos e considerados uma aberração que deve ser tratada à chibatada.

Ver o Diogo Infante a celebrar a sua relação com Rui Calapez não deveria ser um assunto.

Até porque os homossexuais que apenas têm, por azar ou opção, relações curtas não perdem os seus direitos ou dignidade por isso. Tal como os heterossexuais.

Mas celebrar 30 anos de uma relação entre dois homens ou duas mulheres é ainda muito importante.

É um farol contra a intolerância.

Contra a hipocrisia.

Contra a indigência mental.

Que o Diogo e o Rui possam continuar.

Como eu.

E tu que me ouves ou lês.

Independentemente do que precisas, do que gostas, do que és, mereceremos o mesmo destino daqueles dois homens que juntos se tornaram maiores do que já eram.

O Diogo sempre iluminado pelos holofotes.

O Rui sempre iluminado pela sombra.

Trinta anos um com o outro.

Trinta anos que aqui celebro como se celebra o que é verdadeiramente importante e inspirador.

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