Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Inês tem 17 anos e irá morrer nos próximos meses, se tudo correr bem

1.

Andamos tantas vezes pela vida a achar que somos grandes.

Ou a achar que não valemos a "ponta de um corno".

Tantas vezes a tornar os problemas maiores do que são. Ou a desistir por medo. Ou tão gordos de arrogância e soberba. Ou a acreditar que ter dinheiro nos salva de um fim igual ao da pessoa que a esta hora que me escutas não sabe ainda se irá jantar.

2.

Tanta gente anestesiada e depois conhecemos a Inês, uma miúda de 17 anos, filha da Mariana e do Filipe, que irá morrer nos próximos meses, se tudo correr bem.

Porque pode correr mal e morrer na próxima semana ou na outra.

Ou amanhã.

Conheci a Inês numa reportagem escrita pela excelente jornalista Ana Tulha, na última Notícias Magazine.

Apaixonei-me pela sua esperança sem esperança.
Pela sua força frágil.

A Nini...

(ela prefere ser chamada assim)

... a quem foi diagnosticada uma leucemia terminal.

A Nini a quem a mãe, depois de tanto sofrimento, após um transplante de medula que todos acharam que fora bem-sucedido, depois de tantas quimioterapias que lhe rebentaram algumas vezes o ânimo e muitas o corpo, a Nini a quem a mãe, em dezembro passado, num dia de frio no IPO do Porto, lhe contou que mais nada poderia ser feito.

Que não havia cura.
Que os médicos lhe haviam dito que mais valia parar com os tratamentos.

A Nini, de lágrimas nos olhos, a Nini incrédula pela morte da esperança, a perguntar para que as dúvidas fossem desfeitas.

"Mas mãe estás a dizer-me que vou morrer?

- Estás a dizer-me que não vou poder ter filhos?

- Que não me vou apaixonar?"

3.

Andamos nós pela vida como se esta nos devesse alguma coisa e depois somos confrontados com a nossa pequenez.

Com a Nini - a quem chamarei Inês se um dia a puder conhecer - uma menina mulher que após essa revelação decidiu enfrentar a morte com um sorriso.

Foi aí que nasceu uma página de TikTok a que chamou "A Morrer Comigo".

Foi aí que, mais do que nunca, fez de cada manhã uma oportunidade de recomeço e de fome de vida.

As viagens com os pais tornaram-se constantes.

As brincadeiras com o irmão.

A escrita, o ir ao Dragão ver o seu FC. Porto, o fazer legos.

Há uns meses conheceu o Papa Francisco, em Roma - um encontro patrocinado por padres jesuítas do Porto. Nesses dias "habitava" uma cadeira de rodas, acreditava-se que a sua partida estava para breve. O abraço de Francisco deu-lhe força e Inês não morreu a meio do verão.

Chegámos ao outono e ela continua.

Sabendo que não há milagre possível, que talvez já não veja o Mundial de Futebol.

A Inês que parece ter nascido para sofrer. Que aos dois anos teve um cancro que lhe afetou a visão e a fragilizou para sempre.

Mas a Inês sorri.

A Inês grita ao mundo que não há razões para o medo, que não há razões para que as pessoas percam tempo com coisas pequenas.

A Inês prepara-se para a chegada do frio com o seu melhor sorriso de boas-vindas.

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