Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

Não quero que Ruy de Carvalho leia este postal depois de morrer

1. Caro Ruy de Carvalho

Ainda há uns dias nos despedimos da Eunice.

Li coisas muito bonitas, textos sobre o que ela deixou, o que ela foi, disse, representou.

O Ruy e a Eunice, desse ponto de vista, não se podem queixar.

Sofreram o bastante, mas a vida ofereceu-vos a recompensa dos aplausos, do reconhecimento, das homenagens.

Há muita gente com talento que passa por aqui sem conseguir ser dígno de uma atenção que seja - gente que fez tudo para estar à hora certa na estação de comboio, gente que se esforçou para ser grande, gente com talento para quem o comboio não para.

2. Mas gostava tanto que a Eunice tivesse lido o que se escreveu sobre ela.

A importância do vento, as lágrimas que por ela choraram, as muitas centenas de pessoas que dela se despediram.

Talvez a Eunice tenha visto, sabemos lá.

Ah, também o vi a si, Ruy.

Tão bonito, sempre tão digno e enorme no papel de si próprio.

Por isso, por essa memória de si na despedida de Eunice, quis escrever-lhe este postal.

O Ruy de Carvalho vai durar mais anos.

Irá continuar a trabalhar.

A comover-nos.

Iremos continuar a aplaudi-lo.

A agradecer-lhe.

A tentar retribuir um pouco o que nos oferece de si todos os dias.

O que nos oferece quando nos olha com os seus olhos de eterna criança, despertos para os comboios que passam em todas as estações e em todas as esquinas deste mundo agora em guerra.

Talvez tenha estado sempre em guerra, Ruy.

3. Quis escrever-lhe este postal pois quero muito que o leia agora.

Não quero que o leia um dia que vá sem que lhe saibamos a morada e o código postal

(partindo do princípio de que viajará antes de mim)

Quero que o leia, que o oiça hoje, meu amigo.

Acho que posso agradecer-lhe em nome de muitos milhares de pessoas: obrigado, Ruy de Carvalho.

Obrigado pela vida que nos deu para que pudéssemos ser um bocadinho maiores.

Para que pudéssemos acreditar em sonhos.

Para que pudéssemos ler na sua voz grandes autores.

Quero escrever-lhe este postal para que o Ruy de Carvalho saiba o quanto é especial, para que o saiba em vida.

4. Não é um postal de despedida.

Nem o Ruy está doente para lá do que nos invade o corpo quando envelhecemos.

É uma vontade de lhe escrever a si e aos seus personagens.

Macbeth.

Sebastião.

O que em si foi popular e erudito.

O que em si foi Vila Faia e Gente Fina é Outra Coisa.

O que em si nos fez rir e chorar.

O que em si foi cinema.

O que em si foi dos palcos e do plateau.

O que em si assumiu o combate contra a solidão e contra o abandono dos nossos mais velhos.

É um postal escrito com respiração, com entranhas, com coração.

Quero que o leia para que nos possamos abraçar sem que o abraço fale de um mundo que não conhecemos ou de um qualquer reencontro num paraíso ou purgatório.

Quero agora, Ruy de Carvalho.

Queremos que seja agora.

Queremos celebrar estes seus 95 anos.

Queremos celebrar um homem forte, uma árvore.

Um dia que parta sabemos que o fará de pé, de espinha direita e consciência tranquila.

Aqui para nós, é sempre isso que penso quando o penso.

Uma montanha de talento.

Uma suavidade no trato que nos faz sentir especiais, que nos faz sentir que não existe qualquer diferença entre nós e ele.

É um dos melhores portugueses, está farto de o ouvir.

Um dos mais extraordinários atores da história do teatro, um homem empenhado e ativo que espanta a morte e o cansaço com trabalho.

Um homem que luta contra as injustiças, que protesta, que se comprometeu com o tempo em que vive, com o tempo em que viveu.

Continua a levantar-se todos os dias com vontade de ir, continua a representar, continua a ir a escolas, continua a dar entrevistas, continua a falar a todas as pessoas que o abordam como se cada um de nós estivesse ao seu nível.

Era só isto que lhe desejava fazer.

Dizer-lhe que valeu a pena.

Agradecer-lhe por ter feito a sua parte.

Por ser assim, tão bonito e tão nosso.

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