Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

Não vejo o meu pai há 11 anos

1.

O meu pai faria hoje 75 anos.

Mas não o vejo há quase 11 anos.

Estava numa espécie de poltrona com uma mantinha pelas pernas, apesar de estarem mais de 30 graus tinha frio.

Foi a última vez que o vi, menos de 12 horas antes de a minha tia e sua irmã mais velha, me ter telefonado.

"Miguel, o teu pai morreu".

2.

Chamavam-me Miguel.

As minhas tias, as minhas avós, a minha mãe e ele.

Apenas duas ou três pessoas ainda o fazem.

No nosso último encontro estava fraco.

Tremia de frio com o calor. A sua cara esvaziara-se, os olhos pareciam fugir-lhe para dentro.

Disse-lhe: "Pai, tem de existir um próximo projeto"

Respondeu-me: "Não quero fazer mais nada".

Saí sem chorar.

Percebi que decidira partir e que tudo valera a pena.

3.

Tudo valera mesmo a pena.

A sua coragem física.

A sua tenacidade moral.

O seu sacrifício.

Quando me contou que era homossexual eu já sabia.

Afirmara-o ao país, e ao seu partido, muito antes de me ter dito a mim num almoço na Portugália - eu não tinha mais de dez anos.

Assumira-se homossexual quando se pagava um preço altíssimo. Quase ninguém o fazia, mas ele fê-lo contra os costumes, mesmo contra os costumes de uma esquerda que era tão conservadora como a direita.

Quando lhe diagnosticaram a morte...

(em meados da década de 1980 ter SIDA era o mesmo que ser condenado a um fim rápido)

... quando lhe diagnosticaram a morte (contava-lhe) marcou consulta num dentista e em poucos dias arrancou todos os dentes da boca. Um mês depois já se estava a adaptar a uma placa.

Sabem a razão para o ter feito?

Porque o seu médico o avisara de que os dentes eram um dos principais focos de infeção.

4.

Não morreu um mês depois.

Morreu quase 30 anos depois.

Sobreviveu a várias infeções graves.

Três delas mergulharam-no num coma profundo.

Três vezes os médicos me avisaram para estar preparado pois não iria resistir.

Três vezes acordou co vontade de comer o mundo.

Assumiu o combate pela dignidade dos doentes com HIV.

Deu a cara e esteve na primeira linha contra a discriminação, contra o abandono, contra o medo.

Falou em dezenas de conferências.

Tornou-se uma bandeira.

E foi a partir da doença que iniciou uma investigação fundamental sobre a história do fado - um estudo que deu origem a uma coleção e a dois livros que escreveu com Ruben de Carvalho e Rui Vieira Nery.

No final da sua vida recebeu a informação que conquistara o Grande Prémio de Investigação Amália Rodrigues - prémio que fui receber por si.

5.

Lembro-me bem.

De gente que passava para o outro lado da rua quando o via.

De gente que saía do autocarro quando ele entrava.

Lembro-me de um tipo abrir o vidro do carro e gritar, "vê se morres paneleiro de merda".

O meu pai era muito forte.

Sozinho impediu uma multidão de assaltar a casa de Amália Rodrigues - li no livro de Miguel Carvalho e não pude deixar de me emocionar.

Foi para Paris antes de 1974.

Viu o Maio de 68, tornou-se comunista, mas sem nunca deixar de fazer amizade com gente que não o era.

A começar pelos amigos de extrema-esquerda - como José Mário Branco com quem chegou a partilhar casa em Montmartre.

Mas também com pessoas de direita, gente dos fados como João Braga.

Foi comunista e nunca o deixou de ser.

Foi o braço-direito de Ruben de Carvalho na Festa do Avante durante mais de vinte anos.

Ao contrário de outros, manteve-se comunista até ao fim, mas deve a Maria José Nogueira Pinto, na altura provedora da Santa Casa, uma ajuda que foi decisiva para a sua sobrevivência e dignidade.

Não o esquecemos e ele nunca o esqueceu.

O apoio da Santa Casa quando todas as portas se fecharam.

Ele nunca esqueceu Maria José ou a enfermeira Ana Campos dos Reis, coordenadora da Santa Casa que sempre o amparou, que desde o primeiro momento quis ser a sua rede.

6.

Por isso, dividiu-se o seu funeral em duas partes. Na primeira celebrou-se missa por sua expressa vontade.

Sou testemunha e parece que o estou a ouvir:

"No dia em que morrer quero que se faça a vontade da enfermeira Ana, que a missa se celebre".

Na segunda parte, já fora da Igreja, o caixão foi envolvido por uma foice e um martelo e levado aos ombros até ao crematório pelos seus camaradas.

O meu pai faria hoje 75 anos.

Mas já não o vejo há quase 11.

Estava sentado e com frio numa tarde de calor.

Estava de partida.

Nada havia a chorar porque se tinha cumprido.

É isso que digo aos seus quatro netos.

André, Miguel, Afonso e Benedita.

Digo-lhes: o vosso avô valeu a pena.

Não há mais nada que se possa pedir a uma vida.

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