Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

No país mais democrático do mundo uma criança com Síndrome de Down não passa de um "Mongoloide"

1.

Soube esta semana que existe na Grã-Bretanha uma lei que permite que uma mãe possa abortar até ao fim do seu tempo de gravidez se o feto tiver Síndrome de Down.

Repara, não estamos a discutir sobre uma lei de algum país autocrático. Não estamos a discutir estados que, de uma maneira ou de outra, adoram olhar para Esparta ou para as experiências de purificação da raça como exemplos a seguir.

Em Esparta todos os bebés eram mergulhados em água gelada - e só os que sobreviviam eram contabilizados como espartanos.

E na Alemanha nazi são conhecidas as mortes em massa de pessoas com doenças mentais, acamados, paralíticos ou anões.

2.

Não podemos comparar uma coisa com a outra.

Certo.

Mas será que não podemos?

Repito: em Inglaterra há uma lei que permite interromper a gravidez em qualquer período de gestação do bebé se este tiver Trissomia 21.

3.

Tenho algumas dúvidas sobre a eutanásia e votei a favor, e sem qualquer dúvida, sobre a interrupção voluntária da gravidez.

Só que este tema é um outro tema.

É abrir uma caixa de Pandora.

É substituir a palavra "imoralidade" por "amoralidade".

É defender que uma criança só faz sentido se for perfeitinha, se não contaminar o progresso com a sua marca genética que, ainda por cima, se pode perpetuar. É matar o mal pela raiz.

4.

Quando eu andava na escola preparatória havia um menino a quem muitos chamavam "Mongoloide".

Os mais brutais no recreio gozavam-no nos intervalos, o "Mongas" era um saco de pancada.

Nunca mais soube do Filipe.
Um menino que tinha Síndrome de Down, o primeiro que conheci, o mais querido da turma, o que estava sempre pronto a sorrir e a abraçar quem o quisesse abraçar.

E nunca mais soube dos atores do Teatro da Crinabel com quem passei várias tardes. Dos seus sonhos, da vontade de estarem em palco, da participação do António na série "Médicos de Família" ou do Tomás num filme de Luís Filipe Rocha.

E podia falar-te do Francisco Vicente que acaba de publicar um livro que nos diz que "aprender é para todos". Um dia conto-te a sua história.

5.

Ouvi esta notícia sobre uma lei que desconhecia.

Em Inglaterra todos estes miúdos poderiam ser abortados até às 39 semanas de gestação.

Para os legisladores são "Mongas".

Não passam de "Mongoloides" que irão atrasar a vida dos pais, que irão contaminá-los com as suas necessidades especiais.

Logo eles.

Que têm a virtualidade de nunca deixar morrer a infância e os seus sonhos.

Logo eles que têm o poder de trazer amor. De trazer amor a quem amam, a quem os trata bem, a quem se preocupa, a quem também deles desconfia.

Logo eles, incapazes de maus pensamentos, de más palavras, de más ações.

Logo eles, que por terem mais um cromossoma são capazes de ser o que nós nem sequer sonhamos.

Não pode ser verdade a notícia.
Mas é verdade a notícia.
É mesmo verdade a notícia.

Talvez seja realmente importante pararmos para pensar e travar o que este tempo nos traz de bestialidade.

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