Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

O "anão" Marques Mendes

1. Luís Marques Mendes esteve no Congresso que aplaudiu Luís Montenegro.

Sentou-se ao seu lado, foi aplaudido e se não acontecer nada de muito especial - e há tantas coisas sempre que podem acontecer - será o candidato natural apoiado pelo PSD nas próximas presidenciais.

Marques Mendes é uma figura popular.

Inteligente e esperto, o que não é assim tão fácil de encontrar.

Simpático e comunicador.

Informado e influente.

Há quem dele goste e há também os que o detestam ou o gozam - será provavelmente das figuras mais gozadas por uma parte do país.

Nas redes sociais - como antes no Contra Informação - a sua altura é o pretexto para todas as brincadeiras, achincalhamentos e humilhações.

Uma parte das pessoas fá-lo sem ter a noção de que está a ser ofensiva. Em muitas das cabeças, aquele homem não é um homem, mas um boneco ou uma figura pública, o que às vezes vai dar ao mesmo.

2. Estou à vontade.

Tenho um pouco mais de 1,80 e será quase impossível que nele vote nas próximas presidenciais.

Mas há tantos argumentos para podermos criticar Marques Mendes.

Ou para o elogiar.

Por que utilizar o argumento que o menoriza sem que ele tenha culpa alguma?

É como ser careca - como eu.

Ou chamar badocha a um gordo.

Ou maluco a um doente mental.

Ou maneta a um maneta.

Ou lixívia a uma pessoa demasiado branca - como eu sou.

Ou paneleiro a um homossexual.

Ou preto a um negro.

Ou puta a uma mulher livre.

3. Não estou a dizer que se possa comparar o que não tem comparação.

Mas existe um preconceito que une todas estas frases, todos estes ataques.

Um preconceito que parte do princípio de que as pessoas se devem rotular, acantonar, ridicularizar pelo que são ou aparentam.

Luís Marques Mendes parece estar sempre confortável com o que dele se diz. Nunca o vimos chateado ou acabrunhado com as brincadeiras.

Diz bem dele, mas a aceitação faz neste caso com que se brinque ainda mais.

Mas o problema não está sequer no comentador político ou no político mascarado de comentador.

O problema somos nós na nossa perturbante dificuldade de medir as consequências em relação aos que escrevemos ou dizemos. Nem nos passa pela cabeça que adjetivar sobre a altura de alguém seja humilhar essa pessoa com a mais cruel de todas as armas, a da superioridade física.

4. É uma brincadeira apenas, dirão alguns.

Que chatice de moralismo, dirão outros.

Aguento isso.

Mas se alguém chamar preto a um negro e disser que é uma brincadeira, uma parte dos que chamam "anão" a Marques Mendes, irá com toda a certeza revoltar-se.

Luís Marques Mendes merece ser combatido de uma outra maneira.

Pelas ideias, pelo que defende, pela estratégia que está a seguir, por aquilo que fez como líder do PSD e ministro de Cavaco Silva.

Mas não por ser baixo, por parecer uma criança, por voar baixinho, por ser "velhaco ou bailarino", por usar saltos altos ou por ser mais baixo em pé do que a maioria sentado.

Sinceramente, não acho graça.

Mesmo ao que me faz rir.

Por que a liberdade se vê pelo respeito que somos capazes de ter pelos outros - mesmo que não gostemos deles.

Sobretudo pelo que não têm culpa de ser.

Ou pelas suas opções íntimas.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de