Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

O discurso de demissão do ministro da Economia já está escrito

1.

Estudantes de liceu e universitários exigem a saída de António Costa Silva.

Na sua opinião, é intolerável que aquele homem possa continuar a ser ministro da Economia quando durante a maior parte da sua vida foi negociante de petróleo.

Tomaram-no de ponta e agora será perseguido até ao dia em que deixar de ser ministro.

E é justo que assim seja.

2.

Ele é aliás a pessoa mais do que certa para o reconhecer. A política faz-se de símbolos, de combates, de circunstâncias.

Os jovens que se revoltam, se acorrentam, que invadem escolas e universidades têm absoluta razão no essencial.

Tanta ou mais do que os protagonistas do Maio de 68 ou das crises académicas da década de 1960.

Quando gritam pelo planeta, quando desesperam pelas alterações climáticas ou pela cobardia ou ganância dos poderes económicos ou políticos, eles estão a falar de coisas muito concretas.

Das suas vidas.
Do seu futuro.
Do futuro dos seus filhos que temem não ver.

É tão simples quanto isto.
Não interessa ou faz sentido discutirmos sobre se as formas de combate são certas ou erradas.

Ou se neste caso estão a ser injustos para com o ministro da Economia - é completamente indiferente.

Há mais de 50 anos, montras, ruas e carros foram vandalizados. Muitos aproveitaram para lançar a confusão por serem delinquentes ou anarquistas, mas os que viraram Paris do avesso eram o resultado do que era necessário, do que tinha de ser feito, do que precisava de ser feito.

3.

Os ativistas pelo clima em Portugal - que irão crescer na sua expressão - estão a fazer-se notar e isso é importante e deveria motivar o nosso orgulho, os nossos aplausos.

Lutam pelo planeta.
Lutam pela sua vida e contra este modo de fazer política que vive enrodilhada de compromissos, de falsas promessas, de pouca propensão para fazer o que tem de ser feito e doa a quem doer.

António Costa Silva, ministro da Economia, deveria demitir-se em nome deste movimento.

Não porque tenham ainda expressão suficiente.

Ou não por aquilo que propõem - a saída do ministro não resolveria rigorosamente nada, pelo contrário.

4.

Deveria fazê-lo em nome da sua história.

Do seu idealismo de juventude.

Talvez os miúdos que invadem os lugares onde está não saibam que esteve mais de três anos preso em Angola, que foi torturado quase até à morte, que foi martirizado sem que da sua boca saísse o que quer que fosse.

Que foi levado de olhos vendados para ser morto por um pelotão de fuzilamento. Chegou a ouvir o som das culatras das espingardas, mas nunca soube a razão porque não dispararam.

Um dia perguntaram-lhe se tinha tido medo de morrer.

O atual ministro da Economia respondeu que não, que tinha sido uma manhã que enfrentara com tranquilidade pois percebera que chegara o seu dia, o dia de morrer.

5.

Não morreu e desde esse final da década de 1970 todos os dias em que acorda são dias de bónus, dias que resgatou à morte anunciada.

É por tudo isto que António Costa Silva poderia dar o exemplo.

Até lhe posso fazer o discurso.

Começaria assim:

"Em nome do que foi a minha vida, em nome do que combati, dos sonhos que nunca me conseguiram tirar da cabeça, de todas as feridas dos meus dias de tortura e martírio em que jamais me vergaram ou destruíram o desejo de liberdade, em nome de tudo o que me fez ser esta pessoa, abdico de ser ministro da Economia.

Faço-o para dar o exemplo e para dizer ao país que apoio os miúdos que na rua lutam pelo seu futuro. A partir de hoje, e até ao último dia da minha vida, a minha luta será ao seu lado".

António Costa Silva não o fará, mas tenho pena.

Ficaria na história, ficaria para a história.

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