Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

O louco Bruno de Carvalho

1. Eu não conhecia Bruno de Carvalho antes da sua primeira candidatura à presidência do Sporting. E só o vi uma única vez. Fiquei à sua frente num jantar de aniversário do grande Fernando Correia.

Ele ainda não era líder em Alvalade, mas estava por dias.

Pareceu-me esperto e achei (disse-lhe) que ia ganhar as eleições.

Não escrevo muito sobre futebol. Talvez por ser um reduto difícil, tribal, habitado por gente para quem só existe branco e preto, gente que fica cega, insulta e atropela.

Mas escrevi o suficiente sobre Bruno de Carvalho.

Depois de Alcochete e antes de Alcochete.

Critiquei-o por ser populista, megalómano, agressivo.

Critiquei-o por ser detestável no modo como confrontava os adversários e os próprios sócios do Sporting, pela loucura do seu comportamento numa sessão na Assembleia da República, pelas assembleias gerais em que arregimentava a Juventude Leonina contra os que o criticavam.

Simplesmente horrível.

2. Depois caiu em desgraça.

Apareceu desamparado nas redes sociais a dizer mal do mundo.

Apareceu tresloucado em acusações, diatribes, ameaças.

Apareceu no limar da sanidade, no limiar de um lugar perigoso onde, a qualquer momento, achei que se poderia perder para sempre.

Foi expulso de sócio.

Chegou a estar preso, mas a acusação de envolvimento no ataque ao centro de estágio caiu.

E sucederam-se os rumores de que era alcoólico, de que era drogado, de que era tudo e mais alguma coisa.

3. O homem que um dia teve mais de 90 por cento dos votos no Sporting foi abandonado por quase todos. Restaram-lhe uns quantos fanáticos que o idolatram como se fosse a última encarnação de Moisés antes de subir ao Sinai.

Quando já o começávamos a esquecer surgiu no Big Brother.

E era exatamente o mesmo que chegara à presidência do Sporting.

(nem mais nem menos).

Falava desbragadamente sobre comida, mas também sobre os trabalhos domésticos.

Confrontava os colegas do programa como se fosse um capataz.

Apaixonou-se "dentro da casa" com a mesma loucura com que encarava os jornalistas à porta de Alvalade.

4. Sempre tudo ou nada.

Sempre a vida ou a morte.

Sempre no limite entre cair e prosseguir.

Sempre na corda bamba.

Sempre a acharmos que iria partir para a violência ou dar com a cabeça na parede.

5. Parece agora que vai casar.

E hoje fez uma operação que reverteu uma vasectomia que fizera antes - está outra vez disponível para ter filhos e isso é muito bonito.

Entretanto anda pelo país, de norte a sul, a pôr música em discotecas e palcos sempre com casas a abarrotar de gente que paga para saltar ao som do seu beat, do seu pickup, do seu scratch.

Não retiro nada do que escrevi antes sobre ele.

Mas quero reconhecer que Bruno de Carvalho não é apenas uma figura, é isso sim uma grande figura.

Um personagem único.

Desmesurado, completamente louco e completamente no fio da navalha.

Personagens assim são raros e merecem ser protegidos - num mundo de gente tão certinha e enfadonha, Bruno de Carvalho vive todos os dias ao arrepio da lógica.

Umas vezes sem destino, outras a achar que vai partir tudo e conquistar o mundo.

Umas vezes derrotado e depressivo, outras imparável e invencível.

Admiro pessoas que caindo se reinventam.

Gente que renasce até à próxima queda.

E no caso do Bruno de Carvalho, como ele próprio afirmou há uns dias, basta-lhe ter cinco cigarros quando acorda. Cinco cigarros (claro) que fuma uns atrás dos outros, sem pausas. Depois um café ou três. Basta-lhe isso para que tudo lhe seja sempre possível.

Deem os cigarros ao homem.

Não queremos que lhe falte nada.

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