Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

O que saiu da boca de Milhazes pode ser revolucionário

1. José Milhazes atingiu esta semana o ponto mais alto da sua longa carreira de jornalista e comunicador.

Não estou a brincar ou a ironizar.

E ainda menos a desvalorizar o seu percurso - gostando ou não, ele conseguiu marcar o seu próprio caminho e não deixa ninguém indiferente.

Há quem lhe compre os livros como se fossem um mantra.

Há nas redes sociais quem lhe bata e o odeie militantemente.

Há quem leve à letra o que diz, mas também existem os que o diabolizam como se fosse um agente reacionário de um qualquer interesse capitalista.

2. Gosto do José Milhazes.

Mesmo quando me irrita.

Gosto das pessoas que são diferentes, que têm uma luz própria e são inimitáveis - apesar do Herman José o ter imitado como ninguém ontem no "Só Entre Nós", aqui na TSF.

Não gosto dos sonsos.

Dos que são uma coisa num dia e outra noutro.

Dos que se acomodam e são cobardes.

Milhazes, gostando-se ou odiando-se, não é nada disso.

3. Em horário nobre, perante a incredulidade de Clara de Sousa, mas mantendo uma expressão deliciosamente neutra, José Milhazes traduziu em direto o que milhares de jovens num concerto punk estavam a gritar.

Foi um momento extraordinário.

Por ter provado da forma menos subtil o quanto estamos formatados a uma comunicação sem rasgo.

Todos nós dizemos a mesma coisa.

Todos nós alinhamos os mesmos alinhamentos.

Todos nós escolhemos as mesmas palavras, a mesma retórica, a mesma estratégia de comunicação, o mesmo modo de chegar a quem nos lê, ouve ou vê.

O "caralho" dito por José Milhazes em direto na SIC foi, por tudo isso, um momento revelador.

E isso é importante que seja dito.

Também eu me ri muito.

Também eu revi o momento mais de dez vezes.

Também eu mostrei a amigos e aos filhos mais velhos.

Também eu partilhei.

Também eu vi os memes, os bordados de ponto cruz, as canecas, as t-shirts.

Também eu vi a inconfundível cara do Milhazes plasmada um pouco por todo o lado.

Foi como se uma panela de pressão tivesse esgotado a sua capacidade de aguentar mais. O país descomprimiu da guerra e da pressão de carregarmos todos os dias o mundo às costas, os portugueses respiraram fundo e abraçaram a autenticidade e a rutura com o que todos os dias nos entra por um ouvido e nos sai por outro.

Ouvimos, mas deixámos de ouvir.

Olhamos, mas não vemos.

Banalizámos as imagens.

Não tropeçamos no que nos dizem porque as palavras são uma música com uma batida igual todos os dias.

4. Foi um momento alto da carreira de José Milhazes por nos ter provado o que já sabíamos, mas não conseguíamos explicar.

Queremos comunicadores que nos desinquietem os sentidos, que nos abanem, que nos virem do avesso e nos retirem da zona de conforto.

Ao dizer um palavrão em prime time percebemos o quanto estávamos precisados de ser despertos.

Que a metáfora seja o princípio para algumas mudanças.

Que se inventem novas palavras que nos expliquem o mundo.

Que surjam pessoas com a capacidade de não dizerem o óbvio, de não soletrarem o abecedário das cartilhas que nos adormecem.

E que este "caralho" revelador possa transformar-se no futuro em novos modos de comunicar que não precisem de usar asneiras para nos despertarem os sentidos.

Esse será o desafio.

Novas palavras.

Novos protagonistas.

Novos modos de comunicar, de pensar, de contar sobre o mundo.

Se isso for conseguido o país ficará mais desperto para o que se diz e para o modo como se diz.

Se tal for conseguido até eu comprarei uma t-shirt do Milhazes, o homem que nos provou que precisamos de parar para pensar. O jornalista que nos mostrou o quanto estamos contaminados com uma água choca e pachorrenta.

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