Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

O sofrimento de Mário Augusto fê-lo maior

1.

Nunca troquei duas palavras com Mário Augusto.

Claro que o conheço da televisão, das entrevistas que faz a estrelas de Hollywood, do seu olhar descomplexado e generoso sobre a vida e o cinema - para ele dá ideia de que uma boa ficção é o prolongamento da vida real ou então o contrário, que a realidade é o prolongamento dos filmes.

Soube que tinha uma filha há uns dois anos.

Li em 2020 um texto em que falava da Rita, a sua cavaleira da esperança, uma Rita que cresceu diferente dos outros meninos e meninas, uma filha marcada por uma paralisia cerebral que a condenava a não ser, a não conseguir, que a condenava a um sofrimento em vida para lá de toda a justiça.

2.

Quem é pai ou mãe sabe bem o terror de os nossos filhos poderem nascer com um problema qualquer.

Quando nascem contamos logo os dedinhos dos pés e das mãos e ficamos em suspenso com os primeiros testes - se ouve bem, se vê bem, se isto e aquilo.

Isto para não falar dos pesadelos com quedas de camas que nos acompanham ao longo da vida.

Estou a desviar-me.

Volto atrás: soube que o Mário Augusto era pai de uma menina com paralisia cerebral há uns dois anos.

Soube-o por um texto em que partilhou da sua felicidade pela entrada da Rita na universidade.

3.

Passei então a acompanhá-lo.

A ele e à Rita Bulhosa, a sua jovem filha universitária.

Que queria muito ser bailarina.

Mas que não o podendo ser nunca deixou de lutar todos os dias pela vida, pelo direito de sonhar, de fazer, de ser.

Escreveu um livro a que chamou "Aos Olhos de Rita". E nas redes sociais provou que a paralisia cerebral não é sinónimo de qualquer condenação em vida.

Passei a acompanhá-los e a admirá-los.

A ela pela força e determinação.

A ele pela maravilha de oferecer à filha o máximo que um pai ou uma mãe pode dar: a rede que lhes permita ser tudo, a rede que torna possível todos os impossíveis.

4.

Na semana passada a Rita foi operada à coluna.

Uma cirurgia muito delicada e muito dolorosa.

As dores eram insuportáveis e não existia alternativa.

O Mário voltou a escrever sobre a condição de ser pai de uma menina tão extraordinária como aquela.

Disse-nos sobre a dor da sua filha.

Mas também da força da esperança.

Escreveu sobre os parafusos apertadinhos em cada vértebra, sobre o medo.

Mas também sobre a vontade que a Rita tem de sair dali para fora e tornar à vida, aos amigos, aos projetos.

5.

A operação correu bem.

E a Rita voltou a sorrir.

Um sorriso maravilhoso, apesar do corpo quebrado e das dores permanentes.

Caro Mário, deixa-me que te trate por tu.

Obrigado pelo que és, pelo que nos dás de ti.

Obrigado a ti e à mãe Paula, por nos provarem que podemos ser rede para os nossos filhos - por mais difíceis que possam ser.

Obrigado por estarem no lugar dos que nunca abandonam, dos que resistem às perguntas sem resposta, dos que amparam, dos que exercem o direito de amar em vez do direito de desistir, capitular, falhar.

Souberam estar à altura do que a vida vos propôs, foram grandes e tornaram-se maiores do que antes da Rita existir.

Abraço-vos e agradeço-vos por terem oferecido ao mundo esta menina que nos sorri como se fosse a mais extraordinária bailarina do mundo.

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