Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Os autocarros e comboios que só transportam princesas

1.

Já andaram em transportes públicos às seis da manhã?

Já andaram nos autocarros, nas carruagens de metro e nos comboios que saem dos subúrbios para o centro de Lisboa e do Porto?

Já experimentaram as frias madrugadas em que mulheres ainda ensonadas, muitas ainda a dormir, muitas já quebradas por vidas duras, vidas que nem imaginamos...

... já experimentaram os transportes que as trazem para os escritórios, para as casas dos patrões, para os lugares que precisam de ser limpos?

2.

As empregadas de limpeza são das mais esquecidas.

E utilizamos sempre o feminino, nunca dizemos os empregados de limpeza, são sempre elas que ocupam os as nossas casas, empresas, fábricas.

Muitas sem proteção social, sem contrato, sem qualquer segurança.

A sacrificarem-se todos os dias para ao fim do mês, ou à semana, ou ao dia até, como se fossem trabalhadoras da jorna, receberem em dinheiro que guardam nas suas carteiras vazias, sempre à espera do próximo mês, do próximo biscate, da próxima sanita que tem de ser limpa e desinfetada, das nossas roupas sujas para lavar, depois enxugar e passar a ferro.

3.

São sempre esquecidas.

Nunca as lembramos.

Ou muito raramente as lembramos.

Trabalham sem qualquer proteção - tratam dos nossos filhos, cozinham, organizam os armários.

Algumas vestem bata.

Outras não.

E quando desaparece alguma coisa em casa, pensamos que talvez tenha sido ela.

4.

Geralmente vivem nos subúrbios em casas que têm de ser limpas quando regressam de limpar as dos outros.

Com filhos que têm de ser alimentados com o que resta - pastelões das batatas fritas do fim-de-semana, miúdos de frango, o que houver.

Com maridos que muitas vezes não fazem a ponta de um corno. Quando elas chegam estão estendidos nos sofás à espera do jantar e da casa limpa.

5.

Exagero?

Nuns casos, sim.

Honra para as exceções.

Mas talvez não exagere na maioria dos casos.

É a elas que quero dedicar este postal.

A essas mulheres que vivem no fundo da pirâmide social.

Que todos os dias encontram forças para sair de casa nas frias madrugadas, com chuva ou sem ela, agarradas ao sonho de um dia poder ser diferente, com vidas pesadas, com famílias que dela muitas vezes dependem, com o tempo marcado em cada rosto.

6.

Os problemas das empregadas de limpeza, das empregadas domésticas, nunca abrem noticiários. Nem nunca são prioritários para sindicatos, ordens profissionais ou para os governos.

Mas se amanhã acordares de madrugada.

Se amanhã decidires levantar-te e enfrentar o frio e a chuva.

Se amanhã entrares num autocarro ou num metro que te leve dos subúrbios para o centro de Lisboa ou do Porto, vais vê-las.

Algumas de olhos fechados.

Cansadas.

Quebradas.

A matutar num sono que nunca as deixa adormecer com o medo de o despertador não ser suficiente, com o pavor de perderem o autocarro e o emprego que lhes oferece a possibilidade de no regresso poderem, quando o rei faz anos, parar numa loja e comprarem um miminho para os seus filhos que não fazem a mais pequena ideia de que aquela mãe deveria ser todos os dias tratada como uma princesa.

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