Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Paulo Futre poderá finalmente reencontrar a mãe

1.

Querida Maria Augusta.

Recebi a notícia de que morrera pelo Paulo Futre, um dos seus dois filhos.

("até sempre minha querida mãe, descansa em paz"), escreveu o seu mais novo.

Recebi a notícia e tentei saber um bocadinho mais. Concluí que se existir vida depois de estarmos aqui, a Maria Augusta tem razões para estar feliz e orgulhosa.

É disso que lhe quero falar. E peço antecipadamente desculpa pela minha ignorância. É que não sei o que realmente acontece quando morremos. Não sei se a Maria Augusta me conseguirá ler, se ainda aqui está ou se já abalou num comboio invisível, se tem despedidas para fazer ou se consegue soprar aos ouvidos dos vivos.

Ou se a vida acaba como a conhecemos.

Acredito em Deus, mas não sei muito bem o que Deus é. Talvez a Maria Augusta já conheça a verdade ou talvez seja só silêncio o país em que agora habita.

2.

Quero agradecer-lhe pela sua vida de trabalho e de orgulho.

Os dias em que se apaixonou pelo João Paulo, um homem que todos diziam ser obstinado e rigoroso. Os dias do casamento e da vida em comum, os dias em que teve os seus dois rapazes, os dias em que viu o Paulo começar a conquistar o mundo, os dias em que conquistou o mundo.

No Porto.

Depois em Madrid.

Depois por todo o lado onde andasse, por todo o lado por onde anda.

Sei que a casa do seu filho estava sempre cheia de amigos.

Ele adorava receber, adorava oferecer-lhes um pouco da sua fama e a Maria Augusta estava muitas vezes presente. Não deixava o Paulo perder-se em lugares onde se esquecesse dos seus abraços, dos seus cozinhados, da sua presença que o acalmava quando precisava de descer à terra.

​​3.

Sei também que perdeu a memória nos seus últimos anos.

Quando ontem partiu já não conseguia reconhecer os seus filhos e netos.

Já não se lembrava do seu Paulinho.

Ele bem continuava a tentar resgatá-la do esquecimento com as suas gargalhadas, anedotas e presença, mas nada. A Maria Augusta já não estava cá.

Espero que tenha voltado a estar.

4.

Escrevo-lhe este postal para lhe dizer que o Paulo Futre é uma pessoa maravilhosa.

Foi um dos melhores jogadores de sempre, mas é muitíssimo mais do que isso.

É uma boa pessoa.

Sem medo das lágrimas e com vontade de abraçar quem precisa de um abraço.

O seu filho é capaz de virar o mundo para dar a mão a quem precisa. Ainda há uns dias um antigo jogador tombado em desgraça lhe agradeceu por uma ajuda que lhe permitiu salvar-se.

Sei que o sabe.

Mas sei que é sempre bom ouvir.

Querida Maria Augusta, obrigado.

Por ter vivido.

E por ter oferecido o melhor de si a quem ficou.

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