Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Putin não conhece o senhor Samju – espero que hoje o apresentem

1.

Muitos de nós acordaram hoje a pensar que tudo se pode desmoronar de um momento para o outro.

Que um dia podemos ser despertados com uma notícia que não desejamos.

É isso que Putin quer.
Fazer-nos medo que é, sem dúvida, a arma principal de ditadores e terroristas - degolar, estripar, ameaçar, aterrorizar.

Acordámos hoje a pensar que pode acontecer o inominável e eu só consigo lembrar-me do senhor Samju.

2.

Que encontrei numa estação de serviço a caminho de não sei onde. Conversou com a minha mulher que o tratou como se fosse família - não há nenhum médico que tenha estudado na Faculdade de Medicina de Lisboa que não o trate como se não pertencesse à família.

Vladimir Putin ameaça-nos com o holocausto e confesso-te que é nele que penso.

Porque o senhor Samju nos contou uma história triste e maravilhosa. Que não tem nada de especial, apesar de nela tudo ser especial.

Posso contar-te a história?

Ele separou-se da mulher há já muitos anos, a Mimi era tudo para ele. Durante um tempo apeteceu-lhe desistir por os dois pareceram aos seus olhos apenas um, ela na Faculdade de Farmácia a fazer fotocópias para os alunos e ele no Campo Santana, e depois numa salinha da Associação de Estudantes de Medicina, também a fotocopiar, a pôr argolas nos apontamentos, a encadernar.

3.

Talvez não tenha a noção da importância do senhor Samju para todos os alunos de Medicina nos últimos trinta anos.

Livros fotocopiados, livros que de tão caros só assim poderiam ser estudados.

É verdade, é mesmo isso.

O senhor Samju é família para quase todos os médicos que se formaram em Lisboa nas últimas três décadas.

Sabem dos seus dramas e da sua generosidade.
E quase todos, assim que se tornavam médicos, assim que podiam começar a fazer clínica, iam ao senhor Samju que lhes plastificava os valores laboratoriais de referência.

Era o seu modo de lhes dar os parabéns por agora serem médicos e médicas, oferecer-lhes o cartão plastificado que celebrava o fim daqueles anos de formação e juventude.

4.

Putin ameaçou tudo o que somos.
Tudo o que temos.
Ameaçou o mundo com a sua ignomínia.

E eu só penso no último Natal quando o senhor Samju, vindo de um jantar de família, começou a sentir dores no peito.

Ele vendia fotocópias, mas era um bocadinho médico. Conhecia os sinais, reconheceu ser um enfarte.

Dirigiu-se ao hospital mais próximo do lugar onde estava.

As dores tinham aumentado fortemente quando chegou às urgências do Hospital da Luz e pediu por ajuda.

Puseram-no numa maca e o primeiro médico que o viu gritou: "Senhor Samju, o que se passa?".

E quando os outros médicos na urgência ouviram o nome correram na sua direção.

Era noite de Natal, o hospital não tinha muito movimento, mas todos os médicos disponíveis voltaram a ser os estudantes que na Faculdade de Medicina desejavam o futuro.

Os médicos na urgência telefonaram ao cirurgião que estava de prevenção.

Uma hora depois Miguel Abecassis chegou ao hospital. A sua voz ouviu-se à distância.

"Onde está o Samju?".

5.

Putin tentou incendiar o mundo com a gasolina dos cobardes, mas a história de Natal do senhor Samju prova-nos que nada há a recear quando não perdemos a memória do tempo em que fomos miúdos.

Enquanto tivermos sonhos, enquanto quisermos abraçar os senhores "samjus" de cada uma das nossas vidas, a esperança e a luz ganharão sempre à morte e à escuridão dos ditadores.

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