Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Quando vejo o fascista na televisão

1.

O meu Brasil não é o de Bolsonaro.

Não é o do povo que nele votou.

Não é, ainda menos, nos que continuam a apoiá-lo no país, nas cidades, nas ruas ou redes sociais.

O meu Brasil não é o desta democracia brasileira, quero lá saber da democracia se ela se transforma num instrumento para me atacar a dignidade e roubar a liberdade.

Vejo o fascista na televisão e não é aquele o meu Brasil. Chamei-lhe fascista, mas não o é, fui apressado na escolha das palavras, o homem que vejo na televisão está profundamente doente, parece demente mais os que o rodeiam, a começar no tipo que faz a linguagem gestual e a acabar nos filhos, no povo que aplaude os seus "tomates", os grandes "tomates" de alguém que manda as pessoas manifestarem-se em cada lugar onde exista vontade de cumprir as suas palavras.

Não, não é este o meu Brasil.

O Brasil de um homem que disse não ser coveiro quando um jornalista lhe pediu para comentar o número crescente de mortos. O Brasil de uma ala militar que só não fará um golpe militar antes das eleições se não puder.

2.

O Brasil de João Gilberto, Jobim, Chico e Caetano não é este.

Como poderia ser?

Se o Brasil que odeio pudesse ouvir "Chega de Saudade", "Insensatez", "Valsinha" ou "Menino do Rio" jamais poderia dançar com o diabo e aplaudir o apocalipse.

Não, eles não sabem. Não escutaram as palavras dos mestres, não as puderam ouvir de maneira a fazê-las viajar por dentro de si, se o tivessem feito ser-lhe-ia impossível não perceber que existe algo errado quando se olham ao espelho.

O Brasil que amo já não aparece na televisão. Felizmente tenho-o no coração. Temo-los no coração para que não nos esqueçamos de que o Brasil é um país maravilhoso, um país de mar e poesia, um país de gente que acredita na liberdade, que acredita na solidariedade, que acredita na justiça, um país de pessoas que imaginam e cumprem impossíveis, um país de gente misturada que é a prova do respeito pela pele e pela alma do outro.

3.

No Brasil que eu amo...

O de Elis, Calcanhoto, Bethânia ou Gal Costa.

O de Jorge Amado, Lispector, Drummond de Andrade, Vinícius ou Manuel Bandeira.

O de Fernando Meirelles, Sónia Braga, Niemeyer, Sebastião Salgado, Fernanda Montenegro.

Nesse Brasil que venero não há lugar para dúvidas, incredulidade ou acerto de contas.

É um Brasil que tenho dentro do que sou. Que está dentro de cada um dos brasileiros para quem a liberdade é a medida justa de todas as coisas. E nós sabemos, bem no fundo sabemos que, dure o tempo que durar, a vitória será nossa e de toda a música que carregamos, um samba de uma nota só, a nota maior a que uma pessoa pode ambicionar, a liberdade de sermos gente inteira.

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