Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Roger Federer, dá-me a tua mão

1.

Roger Federer fez o último jogo da sua carreira no final da passada semana, em Londres.

Foi um dos melhores atletas da história, para a maioria dos especialistas o mais completo jogador de ténis de todos os tempos.

O seu corpo já não aguentava mais operações aos joelhos e sofrimento físico. Ainda assim resistiu até ao limite e tentou adiar o fim da sua história.

Não dava mais e marcou na agenda do mundo o seu ponto final parágrafo.

2.

Não estávamos preparados para o que aconteceu.

Quando o milagre do bem acontece, quando o milagre do belo nos surge à frente dos olhos, é-nos difícil aguentar por não estarmos habituados.

Estamos à espera, isso sim, é que estes monstros de competição, estas máquinas humanas viciadas em vitórias, se despeçam com estrondo e virilidade, se despeçam como imperadores romanos após a sua última conquista.

3.

Mas Roger Federer escolheu outro fim.

Quis jogar ao lado do seu grande rival, ao lado do jogador com quem teve os mais épicos confrontos - o espanhol e também lendário Rafael Nadal.

Os dois, lado a lado, num jogo de pares.

E os dois, lado a lado, lutaram por uma vitória em conjunto, sem conseguirem disfarçar que cada ponto era uma memória, que cada ponto era uma oportunidade de trocarem um olhar e um sorriso.

O público comoveu-se.

Comoveu-se com cada olhar entre os dois campeões.
Com cada sorriso.
Com cada bola ganha.
Com cada bola perdida.

E nas pausas de descanso, vozes nas bancadas apelavam a Federer para não ir, para não desistir, para continuar.

4.

Não estamos habituados ao belo que não seja o das vitórias que esmagam um adversário.

Mas quando o vemos à frente dos nossos olhos percebemos que talvez ainda persista uma luz de esperança na humanidade.

Percebemos que ainda conseguimos reconhecer o que nos faz maiores, o que nos faz gigantes.

5.

No final do jogo o público aplaudiu de pé.

Não havia quem não estivesse comovido com o adeus de Federer.

Só que o final ainda não chegara.

Para surpresa de todos, Roger Federer e Rafael Nadal estavam sentados e choravam compulsivamente.

Roger por se ir embora.
Nadal porque uma parte de si também ia.

Estavam de mão dada e o silêncio foi esmagador.

Foi como se o tempo tivesse parado.
As guerras miseráveis.
A cegueira dos que obsessivamente desejam o poder e a vitória a qualquer preço.
As pequenas e grandes invejas.
A loucura dos adeptos capazes do inominável para defender a sua equipa e odiar as outras.

De repente, os dois mais ferozes exemplos de força e precisão, frios e implacáveis, choravam como se fossem crianças a quem a mãe grita para voltarem para casa.

Roger Federer e Rafael Nadal, naquele momento, eram iguais ao que de melhor eu e tu somos.

Crianças a brincar na rua que têm de interromper o jogo.
Ou crianças que se despedem para sempre de um amigo por saberem que terão de partir para um outro país, para uma outra cidade.

Só temos mesmo de agradecer...

... por nos terem provado que ganhar não é a coisa mais importante do mundo.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de