Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, depois das 18h00 e sempre em tsf.pt.

Terá sido Deus a salvar Salman Rushdie?

1.

A tentativa de homicídio de Salman Rushdie não seria necessária como prova de fanatismo.

O mundo é, na verdade, o lugar que sempre conhecemos. Nós e quem nos antecedeu. O ser humano é uma máquina de ganância, de inveja, de maus pensamentos, de matança. Também somos o contrário de tudo isto, somos uma coisa e a outra: o cheiro a merda e as harpas celestiais.

2.

Mas há uma coisa meus queridos amigos que nunca se pode misturar porque quando acontece...

... bem, quando se mistura a política com Deus, está tudo estragado.

Quando os homens e as mulheres decidem falar em nome de Deus, quando decidem que a resposta é mais importante do que a pergunta, quando "arrotam postas de pescada" sobre a palavra de Deus como se O conhecessem, como se tivessem acesso à verdade revelada, mais vale fazermos as malinhas e abalarmos para qualquer galáxia distante.

Por isso, não nos iludamos: a tentativa de executar a "pena de morte" decretada pelos radicais muçulmanos após a publicação dos "Versículos Satânicos" de Rushdie não é diferente de outras tentativas de impor a lei e a ordem de um suposto poder transcendente sobre os comuns mortais. É apenas mais radical.

3.

Vivemos tempos de particular fanatismo.

Maluquinhos da bola, maluquinhos da política, gente que insulta, que ameaça porrada, que envia mensagens a dizer isto e aquilo.

Conhecemos o filme, mas volto a dizer-te.

A única coisa que não se pode misturar é a política com a religião.

Coitado de Deus e de Jesus Cristo.

Pobre Maomé ou Alá.

Ou Buda ou outra qualquer divindade.

Tantos a falarem em seu nome e com a verdade na boca.

E já repararam que todos os que falam em nome de Deus são contra a democracia?

Os ayatollas que decretaram a pena a Salma Rushdie.

Os talibãs no Afeganistão que voltaram a cortar mãos, a matar e a proibir as mulheres de ir à escola ou mostrar a cara.

Os apoiantes de Trump ou Bolsonaro que agora estão a agitar o Diabo como arma política.

A Igreja Ortodoxa na Rússia fiel apoiante de Putin.

E a Igreja Católica apoiante histórica de quase todas as ditaduras ou projetos ideológicos de extrema-direita.

4.

As religiões existem enquanto espaços de poder humano.

Deus não tem nada a ver com o assunto.

E se tiver a ver com o assunto não é o meu Deus.

Porque o meu Deus, como já escrevi num livro a que chamei "Amor"

"... Não tem voz grossa, tem a que imagino. O meu Deus não me castiga, oferece-me liberdade. O Meu Deus não me chantageia, acredita na responsabilidade. O meu Deus não me corta o desejo, recomenda-me uma canção. O meu Deus dança comigo quando danço sem par. O meu Deus tem humor, escuto-o e sei do que falo. O meu Deus está aqui, se me virar rápido ainda o vejo. O meu Deus é um pressentimento, uma promessa, é o bem e o mal, sou eu nos piores dias. É esperança e virtude. O meu Deus acredita em mim".

Salman Rushdie foi esfaqueado dez vezes.

Que Deus quereria que tal acontecesse?

Que Deus acharia bem que falassem por ele?

Se Deus existe não terá sido ele a salvar Rushdie?

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