Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

Um dia até Deus se cansará da Igreja Católica

1.

Sempre me comovi com a procissão das velas, em Fátima. Acreditando mais ou menos, tendo uma fé extraordinária ou um racional ceticismo, é impossível não ficar arrepiado com as manifestações de fé, com a energia acumulada, com a soma de tantas vidas juntas em prece à passagem de Nossa Senhora.

Hoje não deve ter sido diferente.

2.

As aparições de Fátima não são um dogma para a Igreja Católica - uma pessoa pode pertencer à Igreja, pode até ser padre ou freira, e não acreditar que os pastorinhos viram Nossa Senhora.

É para muitos teólogos um fenómeno mais profano do que sagrado.

No entanto, diria eu, menos profano do que tantas decisões, omissões e opiniões de cardeais, bispos, arcebispos, padres ou leigos ligados à Igreja Católica ao longo dos séculos.

Diria, vendo o copo meio cheio, que a Igreja Católica só pode ser uma criação de Deus pois com tantos erros, iniquidades e pecados outra instituição já teria sido extinta.

Mas não.

Com mais crise ou menos crise, a Igreja Católica lá continua, o que não deixa de ser extraordinário.

3.

Não quero hoje falar dos casos de pedofilia - agora também esmiuçados em Portugal por uma comissão acima de qualquer suspeita - ou da aparente resistência a que se saiba mais por parte de algumas figuras distintas.

Também não é a altura para comentar as resistências várias da Igreja Católica portuguesa ao 25 de Abril - é conhecido no essencial o compromisso histórico entre a cúpula católica e o salazarismo.

Um dia destes ainda escreverei sobre as reticências e o desdém de muitos católicos proeminentes em Portugal ao Papa Francisco e a tudo o que ele representa.

4.

Acredito em Deus.

Mas é-me difícil encontrar na Igreja Católica um lugar onde me seja fácil o caminho para uma ideia de transcendência.

Admiro muito o Papa Francisco.

Como admiro Frei Bento Domingues, Tolentino de Mendonça, Fernando Ventura ou até José Ornelas, o atual porta-voz da Conferência Episcopal.

Mas quando procuro encontrar razões para ter esperança na Igreja logo a realidade se encarrega de me dizer que sou demasiadamente crédulo.

5.

Repararam no episódio do desejo de compra da sede histórica do CDS pelo Chega?

Para quem não sabe, o prédio de quatro andares no Largo do Caldas pertence ao Patriarcado de Lisboa.

E aparentemente o CDS não tem dinheiro para pagar a renda e quer renegociar valores.

André Ventura aproveitou a brecha e anunciou que iria fazer uma proposta de compra ou arrendamento ao Patriarcado. Chegou inclusivamente a falar de verbas concretas: 7 milhões de euros pela compra e 5 mil euros mês pelo arrendamento.

Também hoje não vos quero maçar acerca dos 7 milhões de euros que o líder do Chega se propõe pagar - arranjar tanta massa é uma boa matéria para uma conversa de pé de orelha.

O que vos quero confessar é que esperei todos estes dias por uma declaração da Conferência Episcopal ou do patriarcado, no sentido de me tranquilizar.

Do género:

"Em nenhuma circunstância o Patriarcado, a Igreja Católica, venderá o seu prédio do Largo do Caldas ao Chega".

"Em nenhuma circunstância e por um qualquer valor. A Igreja Católica não pactua com projetos políticos ancorados em valores que não são os nossos".

Mas não.

Não houve qualquer declaração.

Na verdade, minto.

Houve uma declaração.

A de que até ao momento não chegara qualquer proposta formal do Chega pela compra do edifício.

Só pode ser obra de Deus.

Mas até Deus se cansa, meus queridos amigos.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de