Postal do Dia

Já ninguém escreve postais, mas a TSF insiste e manda bilhetes postais com destinatário. Em poucas palavras mas com ideias que fazem pensar: "Postal do Dia", com Luís Osório. De segunda a sexta-feira, às 22h45 e sempre em tsf.pt.

Um miúdo de 16 anos morreu, mas as festas na Moita continuaram como se nada fosse

1. Chamava-se Salvador o rapaz que matou a "sangue-frio" 21 crianças numa escola primária de um lugar recôndito do Texas.

Esperou metodicamente pelos 18 anos para comprar armas.

Comprou-as como qualquer pessoa o pode fazer nos Estados Unidos - o pode fazer, é bom que se recorde, sem ter de mostrar o cadastro psicológico ou criminal.

Comprou e imaginou tudo na sua cabeça. Treinou os passos como se estivesse a jogar "Call of Duty", anunciou o que ia fazer nas redes sociais, tentou matar a avó, saiu de casa, entrou na escola primária e depois na sala onde executou crianças indefesas.

21 crianças.

E pelo menos, dois professores.

2. Ao vermos as imagens estarrecemos.

Como definir a barbárie dos que continuam nos Estados Unidos a permitir que as armas se vendam indiscriminadamente?

Como definir um tempo em que é tão difícil distinguir realidade e ficção?

Mesmo que estejamos preparados nunca estamos realmente preparados.

Eu não estou.

Ainda me surpreendo com a capacidade que temos de ser diabólicos e perversos.

Será difícil encontrar quem não se indigne ou comova com o que viu, leu e ouviu.

3. Mas também em Portugal, este fim-de-semana, tínhamos razão para nos indignarmos e não nos indignámos. Talvez por não termos pensado sobre o assunto.

Eu conto-lhe.

Nas Festas de Maio, na Moita, um adolescente de 16 anos morreu ao ser atingido por um touro dentro da arena montada na Avenida Teófilo Braga.

O miúdo chamava-se Afonso Jesus.

Tinha jeito para jogar à bola, vestia até a camisola 10, a dos craques, a dos mágicos, a dos que fintam os adversários e a vida.

Na sua equipa de futsal, na Baixa da Banheira, não havia quem dele não gostasse.

Bom aluno, divertido, cheio de vida.

Muito bonito também, o Afonso.

Mesmo.

4. Não resistiu aos ferimentos na primeira largada da festa.

Eram quase duas da manhã quando um touro o atingiu no pescoço.

Afonso caiu inanimado e a Cruz Vermelha presente no local assistiu-o de imediato.

Viria a morrer no Hospital do Barreiro.

E o seu corpo ainda está na morgue para ser autopsiado a pedido do Ministério Público.

5. Por que razão trago dois assuntos incomparáveis?

Por existir uma palavra que me atravessa nos dois casos.

Amoralidade.

A palavra amoralidade.

Por que na Moita, depois de um miúdo de 16 anos ter morrido, a Câmara Municipal, liderada por um socialista, não cancelou de imediato as festas.

Não se fez silêncio.

A Câmara escreveu um comunicado solidário à família.

Mas às 11 da manhã do dia seguinte, os toiros voltaram às ruas da Moita com os seus cornos em pontas.

E tudo aconteceu como se nada tivesse acontecido.

Como aliás em 2014 quando um outro touro matou dois homens na mesma festa, a câmara (então comunista) lamentou, mas manteve as largadas.

6. Não se trata de ser a favor ou contra as touradas ou largadas, essa é uma outra questão, um outro tema.

Trata-se de ter o coração no lugar certo.

De ser empático com o sofrimento, com uma família que perde o seu filho.

De ser empático com esta coisa de sermos humanos.

Imagino que a festa seja decisiva para as contas, imagino que muita gente trabalhe para que aquelas festas aconteçam, mas é impossível não ficar de boca aberta com a amoralidade.

Vejam a cara daquele menino.

Chamava-se Afonso Jesus, tinha 16 anos.

A vida à sua frente.

Golos para marcar.

Filhos para ter.

Danças para aprender.

Podia ser vosso filho.

Podia ser meu filho.

Filho do presidente da câmara.

Digam-me uma razão que não me faça vomitar para que as festas não tenham sido canceladas.

Porque não somos humanos?

Porque somos assim?

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