Sem medo do Medo

Estar de quarentena ou em isolamento social, pode ser uma experiência particularmente difícil. Sobretudo quando as crianças também estão em casa, 24 horas por dia. Até que ponto é que a falta de acesso à cultura e ao lazer nos pode ajudar a deprimir? Como gerir as emoções em família? Como preparar as crianças para notícias tristes? A TSF, em parceria com a Ordem dos Psicólogos, vai dar resposta aos desafios que se colocam a todos nós, neste período particularmente difícil.
De segunda à sexta, às 9h30, um psicólogo responde às perguntas de Teresa Dias Mendes e desenvolve em tsf.pt as várias perspectivas sobre os danos colaterais desta pandemia.

Autonomia e medo da morte

Há um par de aprendizagens interessantes que podemos fazer, a partir da nossa vivência da pandemia e do confinamento, relativas ao medo e à forma de nos defendermos dele.

Uma, é que os medos são mais determinantes para os nossos comportamentos, decisões e mesmo decisões politicas do que os contributos das ciências e das tecnologias. Embora seja da ciência que nós esperamos a cura, a solução, e seja nela que depositamos a fé e confiança e também a esperança que nos esclareça o que vai ser o futuro. Mesmo que ela não tenha solução para tudo, alimentamos a ilusão de que alguém vai tratar, proteger e resolver (que tem a obrigação de resolver!).

Um desses medos, talvez o mais importante, refere-se à ameaça da ideia de morte. Esta ideia de morte, não pensamos nela espontânea e conscientemente, na maior parte das situações. Embora ela esteja sempre a aflorar, por exemplo quando nos cruzamos com uma pessoa com uma deficiência notória ou alguém em grande sofrimento. Porque ambas as pessoas, ou situações, nos remetem para a degradação do corpo e da perda ou deterioração das capacidades. O que nos assusta e preferimos nem ter consciência do facto.

Não admira que, na situação que vivemos, o medo inconsciente seja o tal factor-chave do nosso comportamento. E vemo-lo a agir: na corrida inicial à comida (medo relativo à sobrevivência) e ao papel higiénico (relativo à degradação) e, agora na busca de objetos de proteção (máscaras, viseiras e luvas) para nos proteger dos outros, quando servem, primeiro que nada, para proteger os outros de nós.

Assim, a consciência da morte é uma forma de sabermos que estamos vivos, é a consciência da nossa fragilidade, o que nos pode ajudar a dar sentido ao que fazemos e às nossas escolhas. Pior é agir o medo, especialmente o medo da morte, sem disso darmos conta ou termos consciência. Esse é sempre o perigo maior.

*Vítor Franco, Psicólogo, Psicólogo e professor da Universidade de Évora

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