Sem medo do Medo

Estar de quarentena ou em isolamento social, pode ser uma experiência particularmente difícil. Sobretudo quando as crianças também estão em casa, 24 horas por dia. Até que ponto é que a falta de acesso à cultura e ao lazer nos pode ajudar a deprimir? Como gerir as emoções em família? Como preparar as crianças para notícias tristes? A TSF, em parceria com a Ordem dos Psicólogos, vai dar resposta aos desafios que se colocam a todos nós, neste período particularmente difícil.
De segunda à sexta, às 9h30, um psicólogo responde às perguntas de Teresa Dias Mendes e desenvolve em tsf.pt as várias perspectivas sobre os danos colaterais desta pandemia.

Instinto do Medo

Por estes dias em que se recomendam leituras, ler o "Factfulness", do especialista em saúde internacional Hans Rosling, pode ser algo paradoxal. Ao excelente exercício que nos propõe de confronto com estereótipos, preconceitos, falhas de informação e de processamento que justificam a proposta de 10 instintos que distorcem a nossa perspectiva da realidade, contrapõe-se um subtítulo de livro desafiador ao momento que vivemos - "Dez razões pelas quais estamos errados acerca do mundo - E porque as coisas estão melhor do que pensamos". Um destes 10 instintos é o do medo.

O medo, emoção hoje intensamente parte do nosso quotidiano, que partilhamos com outros na nossa casa, na nossa rua, na nossa cidade, no nosso país, em grande parte do nosso mundo. O medo, enquanto padrão de reacção emocional semelhante ao padrão do vírus, que viaja e contagia, conforme Danielle Ofri descreveu aquando da gripe H1N1.

O medo que nos permite activar "defesas", cumprir recomendações das autoridades e adoptar comportamentos pró-saúde. Que motiva a alteração de comportamentos ou hábitos (como os de etiqueta respiratória) ou a aceitação de perdas (como as decorrentes do distanciamento ou isolamento social).

Para ler: É importante combater o estigma e a discriminação.

Para ver: Sabia que quando o estigma e a discriminação aumentam, aumenta também a propagação do vírus?

Mas também, o medo que nos impele a não considerarmos os factos (agindo com irracionalidade) e a assumirmos como ponto de partida o "menos bom dos outros", o seu egoísmo. Que motiva que pessoas (por exemplo, portadoras de um vírus ou vítimas de violência) escondam factos para não serem estigmatizadas, desprotegendo quem, também por medo, as estigmatiza. Que motiva reacções como a acusação (e agressão) a professores em missão de cooperação em Baucau (Timor-Leste), por supostamente serem responsáveis pela existência de casos no país, desprotegendo quem acusa pois poderão "perder" estes professores.

O medo, emoção hoje intensamente parte do nosso quotidiano, que, também paradoxalmente, nos protege e nos desprotege. Que o medo que nos protege vença.

* Tiago Pereira, Coordenador do Gabinete de Crise da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Nota do editor: o autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico

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