Sem medo do Medo

Estar de quarentena ou em isolamento social, pode ser uma experiência particularmente difícil. Sobretudo quando as crianças também estão em casa, 24 horas por dia. Até que ponto é que a falta de acesso à cultura e ao lazer nos pode ajudar a deprimir? Como gerir as emoções em família? Como preparar as crianças para notícias tristes? A TSF, em parceria com a Ordem dos Psicólogos, vai dar resposta aos desafios que se colocam a todos nós, neste período particularmente difícil.
De segunda à sexta, às 9h30, um psicólogo responde às perguntas de Teresa Dias Mendes e desenvolve em tsf.pt as várias perspectivas sobre os danos colaterais desta pandemia.

O caso Richard Jewell, a COVID-19 e as Fake News

O filme de Clint Eastwood exemplifica bem o poder de notícias falsas e enviesadas, a propósito das quais aqui escrevi em Maio de 2019, mas também a sua aplicação nos julgamentos populares ou como Cass Sunstein recentemente defendeu, de uma nova forma de lapidação, em que as pedras de outrora são agora comentários numa rede social.

A forma como as lapidações começavam nos tempos antigos foi explicada de forma muito simples e bem-humorada no filme dos Monty Python, "A Vida de Brian". Sunstein, mais conhecido pelo seu trabalho com o Nobel da Economia, R. Thaler, descreve: "Os lapidadores operam como uma espécie de força policial privada, impondo algum compromisso moral ou político (...) em risco. Isso explica por que a lapidação (...) ajuda a sinalizar e a constituir uma identidade tribal." É isto que fazemos muitas das vezes em que condenamos na praça pública, sumariamente, perante informações parciais, boatos e afirmações ou até mesmo factos descontextualizados.

No filme de Eastwood, Richard Jewell, um segurança nos Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, salva uma multidão de "morte certa" ao dar o alerta sobre uma bomba. Todavia, Richard é transformado no principal suspeito pelo atentado terrorista após vários erros dos investigadores (um tratado de enviesamentos na tomada de decisão que esperemos possam ser úteis para prevenir erros futuros usando-o no treino dos actuais agentes de justiça).

Ainda antes de ser acusado e quando apenas estava a ser investigado, já alguma comunicação social espalhava a notícia... criada a partir de poucos factos. Da dúvida se seria vilão ou herói, à certeza que era culpado sem ter sido julgado, não demorou muito. Ficou sem trabalho, com o nome manchado, nunca chegando a ser julgado, mas foi condenado em praça pública. Posteriormente a justiça veio a formalizar que ele já não era alvo de qualquer investigação e 6 anos depois foi encontrado o verdadeiro bombista.

Neste momento, a desinformação prolifera até com o anúncio de vacinas homeopáticas para a COVID-19, aproveitando a angústia destes dias. Hoje, para além da comunicação social e do já antigo boca-a-boca, temos as redes sociais digitais e por isso uma massificação destes fenómenos, quase sem filtros, disponíveis para todos e sem responsabilização possível, muitas das vezes, devido ao anonimato, tantas vezes com a narrativa de evitar as conspirativas consequências que sofreriam como se de vítimas se tratassem.

O psicólogo Van der Linden propõe uma abordagem preventiva com base numa teoria de inoculação. É mais uma oportunidade para usarmos os contributos da psicologia nos desafios de hoje.

* Francisco Miranda Rodrigues, Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Nota do editor: o autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico

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