Sem medo do Medo

Estar de quarentena ou em isolamento social, pode ser uma experiência particularmente difícil. Sobretudo quando as crianças também estão em casa, 24 horas por dia. Até que ponto é que a falta de acesso à cultura e ao lazer nos pode ajudar a deprimir? Como gerir as emoções em família? Como preparar as crianças para notícias tristes? A TSF, em parceria com a Ordem dos Psicólogos, vai dar resposta aos desafios que se colocam a todos nós, neste período particularmente difícil.
De segunda à sexta, às 9h30, um psicólogo responde às perguntas de Teresa Dias Mendes e desenvolve em tsf.pt as várias perspectivas sobre os danos colaterais desta pandemia.

O sentido dos dias que correm

Ao dia de hoje, preparamo-nos para sair e enfrentar uma pandemia que está longe de estar ultrapassada... e na eminência de uma crise económica como nunca vivemos. Os desafios que temos pela frente têm uma dimensão tal, que assumem um carácter existencial. O sentido que estamos... e vamos dar - vai determinar se sucumbimos ao desespero ou se sobreviveremos para reconstruir depois.

Entre as facetas desse sentido, queria falar-lhe de três questões que o traduzem.

A primeira questão, é... quem sou eu perante a morte? Quem sou eu perante a morte de outros... ou perante a ameaça de morte de mim ou dos que amo. A ansiedade e o medo fazem com que as pessoas procurem controlar - como forma de lidar com algo tão perigoso. E esse lidar é importante para agir adequadamente. Mas quando a necessidade de controlo é excessiva, as pessoas evitam e esse evitamento pode tornar-se problemático. Aquilo que, em psicopatologia, se chama agorafobia pode no fundo ser visto como a quarentena da ansiedade perturbada. Agora que saímos novamente para o mundo, há um controlo que abdicamos. E o contraponto da segurança que perdemos, ao abdicar desse controlo, com os devidos cuidados... chama-se liberdade.

A segunda questão é... quem sou eu face à ameaça? Quem sou eu enquanto mãe, enquanto companheiro, enquanto patroa, enquanto filho, enquanto agente público. Sou aquele que transborda a sua ansiedade para o outro... ou a contém - a bem da relação? Sou aquela que acumula recursos, em interesse próprio... ou partilha hoje, aquele que foi o ganho passado, com funcionários, fornecedores ou parceiros comerciais? Sou aquele que procura ficar bem na sua imagem pública, ou contribui com a palavra para o bem público. A pessoa que eu escolho ser hoje, é a pessoa de que me vou envergonhar... ou com a qual dormirei de consciência tranquila.

A terceira questão é... como eu quero estar na minha comunidade? A psicologia sabe a importância do altruísmo no bem-estar, ajustamento psicológico e mesmo saúde física. E se nos dias normais ser compassivo já é valoroso, há algo de profundamente humano na compaixão, nos dias que correm. Será você capaz de segurar uma pessoa que cai... numa altura em que o toque é tão proibido?

Sabemos que a historia que contamos influencia a reacção aos eventos que vivenciamos. A história dos dias que vivemos será contada por nós nos anos vindouros - aos nossos filhos ou outras pessoas relevantes. A pergunta mais importante que permanece é... que personagem quer ser nessa narrativa e que história quer contar?

* David Dias Neto, Presidente do Conselho de Especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde da Ordem dos Psicólogos Portugueses.

* Nota do Editor: o autor não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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