Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

A canoa de um azul tão vivo

Está o camponês, talvez pastor, de uma aldeia coberta pelas águas do lago Baringo, no grande vale do Rift, sentado na sua canoa pintada de um azul mais vivo, mais marinheiro, que o azul do céu.

Conseguiu pôr a salvo a família e o gado e tem, agora, o olhar pousado nas águas e, nas mãos, uma cana talvez de apanhar destroços, mais do que peixes. O homem imobilizou a canoa junto ao que poderia ser uma minúscula ilhota, entre tantas outras, deste grande lago queniano. Estará o homem vendo nascer uma minúscula ilha neste trilho que a água refaz por entre as árvores, neste trilho percorrido, em finais do século XIX, pelo primeiro europeu que aqui passou.

A notícia esclarece que o homem observa simplesmente o coruto do telhado da sua própria casa naufragada. O homem perscruta esse, agora inútil, baluarte de colmo como se pescasse um peixe perdido no telhado, fracassado o intento de aprender a voar. Que saberá ele de peixes, se ali era o chão em redor da sua própria casa, o chão do seu gado guardado no mais alto do grande vale do Rift? Talvez o homem interpele simplesmente o espírito das águas, sabendo, mesmo sem ter lido Goethe, que a alma do homem é como a água e o destino do homem é como o vento. Correm para este lago vários rios e de todos saberá ele o sotaque e o tropel. Do mesmo modo saberá, não de o ter lido em livros mas da tautologia do chão, que Baringo é mais do que nome de lago, é a própria ideia de lago.

Talvez saiba, o homem, também, da gazela a que foi dado o nome do tal primeiro europeu que por ali andou, um geólogo escocês chamado Joseph Thomson. Da expedição de Thompson não resultou ferido ou morto, não há dela registo de confronto ou de hostilidade. Tinha o escocês um lema: "Aquele que vai com suavidade, vai em segurança. Aquele que vai em segurança, vai longe". O fio de suavidade que conduziu o geólogo escocês há século e meio parece guiar este aldeão do Rift aparentemente ocupado a pescar a alma da água, com uma estranha paciência. Ou afinal, como num poema que João Cabral de Melo Neto dedicou a Rubem Braga, talvez esta aparente arte da paciência e da suavidade esconda a evidência de que "não é ele quem pesca, a despeito da vara".

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