Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

A Criação dos Animais

Saramago gostava de entrar em igrejas, deixava que o olhar afagasse os retábulos, a talha dourada, as nervuras da pedra, o rigor das fachadas.

Regresso de Resende, onde ele não foi, por causa de uma igreja que mereceu, dele, um soberbo arranque de parágrafo. Saramago refere-se a si mesmo, viajante. E escreve, depois de atravessar, ido de Castro Daire, a serra de Montemuro, onde poderia perder-me: "Nunca viu igreja assim". Ele, Saramago, nunca vira igreja assim. É a igreja matriz de São Martinho de Mouros. Deixara o viajante de há quarenta anos para trás terras com os seus nomes tirados de um poço fundo de memórias, Moura Morta, Mezio, Bigorne, Penude. No mapa saramaguiano destes dias, quantas igrejas? Se as bem contei, a dita matriz de São Martinho de Mouros com o seu torreão, talvez posto de vigia dos soldados de Fernando Magno que, um pouco acima, travaram batalha; a de Almacave, a de Ferreirim, a de São João de Tarouca, fora as Sés de Viseu e Lamego. Em ambos os casos, Saramago usa apenas a palavra Sé dispensando avisadamente a fórmula Sé Catedral em que a todo o passo tropeçamos todos, incluindo eclesiásticas eminências. Ficou para mim clara a redundância quando confrontei o muito erudito padre José Fernando Abrunhosa, um dos párocos de Almacave, a propósito da expressão "Igreja Catedral" por ele utilizada. Ali a dois passos da Sé de Lamego, onde o padre Abrunhosa me deu a inesquecível lição de cátedra, sob "a sumptuosa decoração das abóbodas" que tanto impressionou o escritor, está o Museu de Lamego. Há quarenta anos, Saramago não pôde visitá-lo, estava em obras. O autor de Viagem a Portugal lamenta não ter podido olhar, por um minuto que fosse, A Criação dos Animais de Vasco Fernandes. Saramago desejou intensamente ver "aquele maravilhoso cavalo branco a que só falta o chifre agudo e espiralado para ser unicórnio". Quarenta anos depois, está, de novo, o Museu de Lamego em obras, mas a directora Alexandra Falcão abre-me a porta e pergunta-me onde quero fazer a gravação. Em homenagem a Saramago, respondo: "Diante d'A Criação dos Animais". Alexandra responde que não é possível, o quadro foi emprestado ao Museu Grão Vasco, em Viseu, para uma exposição. Talvez possa vê-lo esta manhã. Mas não poderei desvendar um enigma: saberia Saramago que no quadro de Vasco Fernandes há, mais em fundo, discreto, sem a exuberância do cavalo branco, um unicórnio? Terá sido um artifício do escritor para nos confundir, para nos levar a olhar mais de perto, para nos ajudar a descobrir a donzela sentada em cujo regaço todos os unicórnios repousam a cabeça?

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