Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

A menina sozinha

Cecília Meireles contou, certa vez, que a sua "infância de menina sozinha" lhe dera duas coisas tidas como negativas e que para ela foram sempre positivas: "o silêncio e a solidão". Ela dizia que essa foi "a área mágica" em que nasceram os seus próprios livros, "o desenrolar natural de uma vida encantada com todas as coisas".

Imagino Cecília, menina sozinha, construindo sua "casa sobre rosas".

Onde terão os pensamentos levado Zehra, a menina de cinco anos que teve, ontem, só para si, a sala do pré-escolar de uma escola de Maximinos, em Braga. A reportagem de Samuel Silva, no Público, é uma história de desencantar, escrita com uma delicada incomodidade. Na sala que costumava acolher outros 24 meninos, Zhera brincou sozinha, desinfectou as mãos sozinha, seguiu os desenhos animados na televisão sozinha, foi sozinha ao refeitório onde as cadeiras são cor de laranja, regressou à sala onde as pernas das mesas são amarelas. Para a semana, virá outra menina.

Maria José, a educadora, lembra que, nesta idade, Zehra e os colegas deveriam estar a socializar e reflecte sobre o modo como será capaz de dizer o contrário do que até agora ensinou aos meninos, sobre o modo como lhes dirá para se afastarem um pouco mais uns dos outros.

O repórter escutou, noutra escola, em Estrada-Ferreiros, a frase da educadora Alexandra Paz: "Este silêncio não é normal". O silêncio das escolas quase vazias.

Lembrei-me de um outro caso, antigo de mais uma década, na aldeia de Vinhas, para os lados de Macedo de Cavaleiros. O único aluno da escola da aldeia propôs à professora: "Vamos imaginar que há aqui outros meninos". Chamava-se João.

Que terá a vida feito dele? Quantos amigos terá feito, no café Paris ou junto ao fontanário, fora da teia de um silêncio que também não era normal? Quantas promessas no santuário de São Gregório ou na capela do Senhor do Bom Caminho? Quantas surtidas aos caretos de Podence, ao moinho das Olgas, ao Azibo, ao rodeão com grelos na moagem do João do Padre?

Vamos imaginar que há aqui outros meninos.

Uma casa sobre rosas.

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