Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

A outra seca

O jornal El País leva-nos ao vale do rio Omo, no sul da Etiópia, já perto da fronteira com o Sudão do Sul. Nesse vale vivem os pastores da etnia karo, aqueles que pintam o corpo, o tronco e o rosto pontilhados de branco.

Uma jovem mulher sorri suavemente. Amamenta o filho, em pé, o rio em fundo. No grande vale inscrito na longa lista do património da Humanidade, oito etnias partilham o que a inundação regular das margens do Omo pousa na terra fértil onde cultivam o sorgo. Quando o rio arrasta esse lodo úbere, resta-lhes o gado que os prende nessa lonjura a várias horas de voo de Adis Abeba. Os repórteres do El País terão feito esse percurso. Do aeroporto mais a sul terão percorrido duzentos quilómetros de asfalto e, em seguida, mais de cinquenta em pista de areia. Que novas nos trazem da etnia karo? Anunciarão que já não há pastores? Ainda não. Por agora, avisam-nos de que já não há turistas. E que essa é "a outra seca que ameaça os indígenas africanos".

Há uns anos, o realizador Jorge Pelicano aventurou-se pelo mais interior de um antiquíssimo vale glaciar na Estrela com uma pergunta: "Ainda há pastores?". Nessa paisagem de extrema beleza ele deu-nos ver as pastagens, os lameiros, os trilhos dos pastores de Casais de Folgosinho. E apresentou-nos o pastor Hermínio, incessantemente percorrendo com o seu leitor de cassetes um mundo perdido. Hermínio conduz os rebanhos pelas cortes ao som de Quim Barreiros e por lá anda, ainda, acenando a quem passa.

Quando vamos por esses lugares tantas vezes perdidos da nossa atenção tememos que um dia a resposta seja não, já não há pastores.

Agora que o mundo global viu cortados os veios dos seus rios Omo, é duplamente perturbador que o título de um jornal europeu nos diga que já não há turistas, lá nos mais remotos lugares de uma África de pastores.

O jornal explica a dimensão do golpe sofrido pela indústria turística em todo o continente africano, em consequência da pandemia. O encerramento de fronteiras trouxe, por arrasto, como uma inundação do Omo, o cancelamento em massa de voos, de reservas de hotéis, de safaris, de visitas culturais. Tremendo revés, num ano em que se esperava um forte crescimento no sector. A notícia diz-nos que algumas etnias, até agora empurradas para a dependência do turismo, ficaram sem reservas de alimentos, já que só algumas aldeias salvaram as suas terras de cultivo. A fome já deu sinal e algumas ONG estão a ser chamadas para a emergência humanitária. Há dias, houve uma entrega de cinco toneladas de arroz numa das aldeias mais atingidas pelo desaparecimento dos turistas.

"Já não há turistas", diz a notícia. Imaginamos, num registo benévolo, que muitos desses turistas soubessem pousar nas margens do Omo um olhar que viesse da arte do pastoreio. Pois há um olhar que pastoreia a paisagem e transporta a pergunta do Caeiro: "Pastor do monte, tão longe de mim com as tuas ovelhas / que felicidade é essa que pareces ter - a tua ou a minha?".

Lá nas margens do Omo a notícia diz: "Já não há turistas". Assim antecipa a notícia a vir, ainda perguntando: "Ainda há pastores?".

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