Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
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A primeira vez de Roseilson no estádio

Roseilson Amaro da Silva conta ao jornal "Folha de São Paulo" as circunstâncias em que entrou pela primeira vez num estádio de futebol.

Estava em casa, diante de um espelho, fazendo a barba, quando começou a sentir um estranho cansaço e quase desmaiou. Uns dias antes, perdera o apetite e começara a sentir tosse e febre. Com esses sintomas deu entrada num hospital na zona norte de São Paulo, onde ficou duas noites. Depois foi levado de ambulância para o velho estádio do Pacaembu, transformado em hospital de campanha no combate à covid-19.

O repórter descreve o cenário actual do velho estádio onde brilhou Leónidas da Silva, aquele a quem chamavam Diamante Negro e a quem tantos comentadores atribuíram, erradamente, a invenção do pontapé de bicicleta. Lá foi instalado em dez dias um hospital de campanha, numa tenda de 6.300 metros quadrados que acolhe 500 profissionais de saúde e pouco mais de 200 doentes. O acesso das ambulâncias, conta o repórter, faz-se pelo "gol do Tobogã". Traduzo: pela arquibancada construída no local onde chegou a existir nos anos 60 uma famosa concha acústica.

E, afinal, Roseilson? Passou nove dias no hospital de campanha, ganhou o jogo com a covid, mas não sentiu o esplendor da relva. Ele lembra-se de vibrar com as vitórias do seu clube, liderado por Telé Santana. Lembra-se das taças da Libertadores e do Mundial de clubes, mas todas as suas alegrias de torcedor foram intermediadas pela televisão. Roseilson não é de ajuntamentos, por isso nunca entrara num estádio. É isso que promete fazer, quando a vida regressar à tal tão invocada normalidade.

Talvez o seu acanhamento social, o seu afastamento da turba, lhe permitam ver na nova modalidade do pontapé na bola em estádios vazios um jogo de futebol. Talvez ele encontre algum encanto no campeonato sem abraços.

Mas dificilmente a sua nova entrada pelo gol do Tobogã não conduzirá a uma felicidade triste. A tenda entretanto montada nos estádios alemães ( e, não tarda, em tantos outros, também por cá) permitirá acolher aquilo a que Luis Freitas Lobo , numa magnífica conversa com Teresa Dias Mendes, ontem ao fim da tarde, na TSF, chamava "um sucedâneo do futebol", "futebol in vitro, de inseminação artificial".

Senti o mesmo, vendo o jogo do Borussia: não consegui sentir "aquilo" como um jogo de futebol. Mas Roseilson , sentado na arquibancada do Pacaembu, não espera pontapés de bicicleta, nem o clamor da multidão. No seu primeiro dia de estádio, é ele que levanta a taça. Por ter derrotado a covid.

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