Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

A sonda Esperança

Era ainda noite de domingo em Portugal, já manhã de segunda feira no centro espacial Tanegashima no Japão, de onde a sonda Esperança, "Al-Amal" em árabe, foi lançada. A sonda dos Emirados Árabes Unidos ganhou os ventos sem fim, tornando-se deste modo a primeira missão espacial árabe lançada para a órbita de Marte. "Al-Amal" vai permanecer na órbita do planeta vermelho durante um ano marciano, o que corresponde a quase 700 dias do confinamento terrestre. Em breve, outras missões, uma chinesa, outra norte-americana, ganharão a poeira de Marte.

Estamos ainda na fase das missões não tripuladas mas a notícia trouxe-me de volta a proposta recente do cineasta Werner Herzog, numa conversa com João Antunes, do JN. O realizador de Fitzcarraldo confessou que gostaria de fazer um filme numa estação espacial e que gostaria de ser incluído na primeira missão a Marte. "Deviam mandar um poeta", disse Herzog.

Como seria esta ideia acolhida em Abu Dhabi? Seguramente, melhor do que em Riad onde, não há muitos anos, o poeta Ashraf Fayadh foi condenado à morte, acusado de renunciar ao Islão. As notícias que chegam dos Emirados incluem ainda frequentes atropelos aos direitos humanos mas , na mesma ocasião em que Fayadh escutava a sentença implacável, Hissa Hilal, uma poeta saudita, vestindo o mais cerrado niqab, declamou um poema muito crítico dos clérigos islâmicos, num concurso da televisão estatal.

A notícia do lançamento da sonda árabe a Marte reacende o nosso espanto sob o "pó das estrelas". Folheamos as mil e uma noites de um incerto vaivém e, tocados pelo desafio de Herzog, montamos a garupa da nave de Drummond. Depois de experimentada, colonizada, humanizada a Lua, afinal "tão igual à terra", "o homem chateia-se na lua./ Vamos para marte - ordena a suas máquinas./ Elas obedecem, o homem desce em marte / pisa em marte / experimenta / coloniza / civiliza / humaniza marte com engenho e arte./ Marte humanizado, que lugar quadrado./ Vamos a outra parte? Claro - diz o engenho / Sofisticado e dócil. / Vamos a vénus./". O poema é um foguete que demora longos versos até accionar os propulsores, até que, tudo visto e orbitado, só resta ao homem " a difícilima dangerosíssima viagem / de si a si mesmo: / pôr o pé no chão / do seu coração / experimentar /colonizar / civilizar / humanizar / o homem / descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas / a perene, insuspeitada alegria / de con-viver".

Os poetas, afinal, só atrapalham os astronautas. Em "Pó de Estrelas", um belo livro com ilustrações de Cristina Valadas, Jorge de Sousa Braga também se propõe ocupar um lugar no vaivém que vai partir de Cabo Canaveral, passar uma tangente a Marte, escrever o próprio nome em Urano e, no regresso trazer de saturno um anel para o dedo amado.

E o nome de Alfonsina Storni diz-vos alguma coisa? Alfonsina foi uma poeta argentina cuja história triste correu mundo numa canção chamada "Alfonsina y el mar". Essa canção ganhou dezenas de vozes, de Mercedes Soza a Placido Domingo, de Silvia Pérez Cruz a Cristina Branco. Em "Palavras a um habitante de Marte", Alfonsina Storni pergunta ao imaginado marciano se ele possui "boca para o riso, coração de poeta", ou se no seu mundo "acaso, se erguem as cidades como sepulcros tristes". O que procura ela? "Uma estirpe nova através da altura." Certa vez, caminhou para o mar, entrou mar adentro, e não regressou ao areal.

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