Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

A vida passa tão depressa, não é?

Vogando na rede, "à toa, à toa", como a andorinha de Manuel Bandeira, encontrei uma deliciosa entrevista de Marília Gabriela a Tom Jobim. Corria o ano de 1987, ele fazia 60 anos e ela perguntou-lhe: "Você alguma vez achou que ia fazer 60 anos?". Ele respondeu, enquanto devorava suavemente um charuto: "Não, nunca pensei nisso. A vida passa tão depressa, não é?".

Não sei se a entrevista tinha algum gancho discreto com uma outra, publicada vinte anos antes, na revista Manchete. Nessa outra entrevista, Clarice Lispector perguntou ao criador de "A Garota de Ipanema" como é que ele encarava o problema da maturidade. "É terrível ter quarenta anos?", quis saber Clarice, que tinha 47. Jobim respondeu-lhe com um verso de Drummond, "A madureza, esta horrível prenda". Mas a entrevista de vinte anos adiante, aquela de 1987, dada a Marília Gabriela, enquanto um charuto ardia suavemente na tv, a entrevista que ontem encheu de beleza uma parte do meu dia, fez a dado momento agulha com o autor de "Sentimento do Mundo". Foi quando Jobim contou: "Eu liguei para o Drummond quando ele ia fazer 80 anos: 'Puxa, Drummond', disse eu, 'como é? Você vai fazer 80 anos? E ele disse: 'Ah, vou adiar'...

Marília insiste, quer saber como é "ser Tom Jobim aos 60 anos". Ele sorve uma fumaça de charuto, saboreia uma pausa e passa pelo crivo próprio o verso drummondiano: "A madureza traz prémios mas traz, também, coisas chatas. Você vai ficando lerdo, preguiçoso, impertinente."

Conta-se que Tom Jobim pediu, certa vez, a Drummond, um dicionário de rimas. Isso ocorre-me quando dou comigo a pensar como estas histórias rimam entre si, rodando os dias e os personagens. Quando o poeta Manuel Bandeira (de quem se dizia que escrevia por música) fez 80 anos, Drummond organizou uma antologia das suas crónicas. Ao livro foi dado o título "Andorinha, Andorinha", glosando os versos do pernambucano que sabia o caminho para Pasárgada. Nesses versos, Manuel Bandeira, de quem Jobim musicou, por exemplo, o Trem de Ferro, compara o à toa da sua vida com o à toa do dia da andorinha. O poeta reclama para si, nesse andando à toa na vida, a dose maior de tristeza. Era a sua maneira de dizer que "os ombros suportam o mundo", se posso rimar assim vidas que se cruzaram, mais charuto menos charuto, dentro da noite veloz.

Vinte, quarenta, sessenta, oitenta anos, num ai, andorinha, à toa, à toa. Venha a madureza, sua preguiça e impertinência. Venha a velhice. "Que é a velhice?", perguntará Drummond, muitos poemas depois de desligar o telefone a Jobim. E Jobim, vinte anos antes, perguntado sobre quão terrível é ter quarenta, evoca os dias da infância em que havia o hábito de ir para a cama com um livro antes de dormir, e devolve a Clarice outra pergunta, ou talvez a mesma: "Sinto uma espécie de falta de tempo da Humanidade. O que é que você acha?". Continuamos a conversa quando calhar, que eu agora vou ficar uns dias sem cá vir.

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