Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Anotações de um passeio higiénico

Todos os dias, por volta das 6, quando o João Janes termina o turno da madrugada, desço com ele. Ficamos lá fora uns minutos a tagarelar sobre o avulso quotidiano; depois, ele mete-se no carro e eu vou ao Lima. O Lima era já o único café aberto nas redondezas das Torres de Lisboa. Fechou na véspera da declaração do estado de emergência. Mas continuo a descer com o Janes, tagarelamos sobre o que calha, ele vai descansar e eu dou uma volta ao quarteirão. É muitas vezes nessa breve caminhada que encontro o gatilho da prosa. Esta madrugada era ainda mais forte a gritaria dos pássaros nas árvores perto do Lima e, quando iniciei o solitário ritual peripatético, começou a cair uma chuva miudinha que me soube bem. Estava anunciada e, de algum modo, casou bem com a ideia de passeio higiénico que pretendo adoptar nos próximos dias de maior recolhimento.

A chuva miudinha desta madrugada não me obrigou a estugar o passo, nem acelerou o ritmo de corrida do homem que se cruzou comigo, equipado a rigor. Soube-me bem a morrinha que limpava o ar tão sobrecarregado de perigos, neste dia em que a sua qualidade pode ser diminuída pelas partículas poluentes em suspensão trazidas dos desertos do norte de África.

Na breve caminhada dei corda a três ou quatro ideias que pretendo concretizar nos próximos dias, durante o mais rigoroso recolhimento. Essas ideias precisam de fazer o seu caminho, precisam de ar, de correntes de ar. Sem isso, perdem fulgor.

Esta madrugada, caminhando sob a chuva miudinha, lembrei-me do grande Carlos Nejar que há dias, na inteireza dos seus 81 anos, anunciara o plano de dar a volta ao Brasil falando de poesia. Nejar lembrava, na ocasião, que " a poesia brilha além do verso". Aqueles a quem se propunha levar esse brilho de um poema digno, vão ter de esperar que a chuva limpe o ar do mundo. Saibam e possam esperar pela chegada do poeta que foi também promotor de Justiça. Um dia perguntaram-lhe como podia ser promotor e poeta. Ele respondeu simplesmente: "Quando o poeta faz um poema digno, está a fazer justiça. É a justiça da palavra, o amor da palavra por si mesmo".

Talvez encontres (num alfarrabista que o possa enviar por correio) um romance de Carlos Nejar chamado "O Livro do Peregrino". Há uma edição portuguesa da Pergaminho, já com duas décadas. O livro remete-nos para um tempo longínquo em que os homens caminhavam sem destino, porque o importante era caminhar.

Mas caminhar é também uma arte. Estes dias podem ser um incentivo a que o saibamos descobrir, mesmo no necessário recolhimento. A Quetzal publicou, em finais de 2018, "A arte de caminhar", um livro do explorador norueguês Erling Kagge. Ele foi a primeira pessoa a atingir, sozinha, o pólo sul, numa travessia que durou 50 dias. No livro ele lembra-nos que tudo se move mais devagar quando caminhamos. E ajuda-nos a desvendar o segredo só ao alcance dos caminhantes : "a vida prolonga-se quando andamos a pé". Isso é verdade mesmo que uma chuva miudinha decida lavar o dia, durante o nosso "passeio higiénico".

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