Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Aquele homem na sua cama-veleiro

Já vimos tantos rostos macerados pelas máscaras do medo e, afinal, ainda podemos surpreender-nos. Já seguimos o passo dos repórteres pelos corredores dos hospitais, já vimos cidades vazias, olhares acossados, o temor marcando a distância, o naufrágio dos olhares. E afinal, ainda estremecemos diante de imagens como aquela que o catalão David Ramos registou no Passeio Marítimo de Barcelona, junto à praia quase deserta de Somorrostro.

Andou por tanto mundo, desde que terminou o curso de fotografia na Universidade Politécnica da Catalunha e se fez freelancer com âncora breve na Associated Press. O olhar dele demorou-se na Faixa de Gaza, no Líbano, na Macedónia, no Kosovo, já foi distinguido pelo World Press Photo, há uns anos contribuiu para o enriquecimento do formidável banco de imagens da Getty. A imagem que registou no Passeio Marítimo de Barcelona e ganhou a atenção editorial do El Pais deveria encher a sala de entrada do Hospital del Mar que não podemos ver mas pressentimos na outra margem da grande avenida rente às águas. Ali perto há-de ficar, também, um restaurante chamado Al Vent onde fazem uma paella de marisco e uma pipirrana que teriam encantado Pepe Carvalho.

A imagem mostra-nos cinco enfermeiros, com as suas batas e as suas máscaras azuis rodeando uma das camas dos cuidados intensivos do hospital trazida para o mais perto possível do grande areal de Somorrostro. A cama articulada foi colocada de modo a que aquele homem nela deitado, a cabeça mais elevada que o corpo, possa ver as poucas pessoas que andam na praia e a nesga de areal enquanto talvez lhe ocorram algumas notas de Llanto Al Mar, a bela canção de Joan Manuel Serrat, aquela em que confessa o desejo de ser sepultado entre a praia e o firmamento.

Ou talvez corram nos seus pensamentos os versos de Joan Maragal, o poeta avô de Pasqual, aquela Vista de Mar que não seria muito distinta do mar que este homem antigo navega na sua cama-veleiro. Aqueles versos que traduzo livremente: "Um a um, como virgens numa dança, /entram, deslizando, os barcos no mar/ abre-se a vela como asa ao sol /e, por caminhos que só eles vêem/ afastam-se mar adentro. Oh céu azul, oh mar azul, praia deserta, sol amarelo/ Tão perto, o mar canta para ti enquanto esperas/ pelo regresso magnífico, da primeira barca, rompendo do poente, tão perfumada.

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