Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

As aves que voltam

No El Pais de ontem, Juan Cruz conversa ao telefone com Joan Manuel Serrat. Falam destes dias tocados pelo medo, das memórias do catalão contidas nas seiscentas páginas de "Algo Personal", a autobiografia publicada há uns anos e que adopta o título de uma das grandes canções de Serrat sobre os "homens de palha" que usam a água de colónia para "ocultar as obscuras intenções". A canção lembra-nos que, possivelmente, na sua aldeia, roubavam flores para oferecer às mães e davam de comer aos pombos. Na conversa de ontem, Serrat lembra-se dos dias da infância porque Juan Cruz recupera uma frase da autobiografia do cantor: "Quando era criança fazia frio e o mundo era triste". Falam do fechamento dos dias do grande medo que veio com o frio, Serrat confessa que se sentiu desorientado e que a sua desorientação deve ter sido semelhante à dos cientistas e à dos políticos. Foi da casa com árvores e ar livre que viu, ao longe, a "colmeia" da sua cidade. De lá viu "passar o tempo", viu como terminou o inverno e surgiu a primavera. E viu "aparecer os pássaros" que há muito não visitavam o seu jardim, "os pintassilgos e, até, um colibri".

Essa passagem fez com que me lembrasse da grande tournée dos dois pássaros, o "colibri" Serrat e o "corvo" Joaquin Sabina, em 2007, por Espanha e pela América Latina. "Dois pássaros e um tiro", gritavam os cartazes.

O tiro da memória melancólica espanta as aves inusitadas que têm vindo pousar na ramada das leituras. Há dias, relendo a Casa Grande de Romarigães, dei comigo a anotar nomes de aves que nem vinham à mão de meu pai nas conversas de antigos outonos. Reler Aquilino é reencontrar palavras, não apenas aves, de que nos perdemos em lugar incerto. Na Casa Grande, logo nas páginas iniciais, quando descreve os duros trabalhos do padre Gonçalo da Cunha nos terrenos que acabara de comprar, e onde erguia casa, Aquilino dá-nos este primor: "Todas as manhãs, ainda a corcolher tinha o primeiro trilo no papo, saltava da cama". Um madrugador como eu salta para a fileira de dicionários, procurando a explicação dos pássaros. A corcolher percorre, também, o chão raso de uma frase das Terras do Demo (mas essa é uma anotação que faço com a ajuda de Ana Isabel Queiroz, a investigadora que organizou um notável Guia das Aves em Aquilino: "Cortavam o céu alto bandos de pombos bravos e, descuidosas, mondando o grão caído da espiga gorda, cantavam na terra das searas a perdiz e a corcolher".

Que ave é afinal esta corcolher? É a codorniz. Há lugares onde o nome é dado também à cortovia, a "irmã cotovia" que José Afonso convoca, numa belíssima canção. "Vem devagarinho / para a minha beira".(...) "Assim tu souberas / irmã cotovia / dizer-me se esperas/ pelo nascer do dia".

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