Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

As cegonhas da nacional 206

Vou pela nacional 206, no sentido de Monchique. Antes de virar à direita pela nacional 104, tomando, depois, a municipal 1073 e começando a subir, entre os vinhedos da Quinta do Francês e o fio de água da ribeira de Odelouca, a caminho das ruínas do cerro do castelo de Alferce, onde a equipa do arqueólogo Fábio Capela retomou escavações, avisto na berma da estrada, uma jovem pintando cegonhas. Num primeiro instante, pensei que as contava, para algum estudo de autarquia ou de observatório de aves. Inverti a marcha perto do restaurante da Ti Emília, em Porto de Lagos, e encostei na berma a dois passos de Ariana, natural do Porto, estudante de Belas Artes em Hamburgo, ali em férias, chapéu de palha para se proteger do sol, flores de papel no guiador da bicicleta, um bloco de folhas A4 aberto diante da incrível colónia de cegonhas, mais de cem, num olival rodeado de árvores mais esguias. No alto das mais esguias, o costumeiro ninho, nas copas mais baixas um vasto aconchego de palha e de algum lixo, atapetando casa mais ampla. Comparada com um poste da luz ou uma palmeira, uma ampla copa dá outro arrumo, um ninho com mais assoalhadas. Eis-nos, não longe do desvio para as ruínas da capela rural de Nossa Senhora do Verde, diante a um inusitado condomínio de cegonhas que às vezes se assustam com o relinchar dos cavalos que ali se abrigam do sol.

Ariana foi atraída ao local pelo som que as cegonhas fazem à noite e que se ouve com muita nitidez na casa que alugou para férias. Talvez o percussionista e coreógrafo Rui Júnior saiba reproduzir com as mãos na pele do tambor o som que as cegonhas fazem, batendo bico contra bico. A amplitude das vocalizações da cegonha vai do grunhido ao assobio e, pelo que ouvi, e tentei gravar à distância, pode pedir meças à matraca.

Não sei se uma colónia de cegonhas atrapalharia as escavações da equipa de Fábio Capela que já lá vem buscar-me com o jipe. Fábio há de comover-me ao mostrar-me, lá no alto, o que sente debaixo dos pés, não falando da metade do mundo que a vista alcança. Ariana já ficou para trás, fotografando cegonhas. Ela adoraria desenhar estas ruínas de um castelo aflorando entre sobreiros. Mas, às tantas, alguém lhe falou da lenda da Senhora do Verde e foi procurar outras ruínas.

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