Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

As livrarias

Ao longo dos últimos dias, percorri várias cidades do norte. Vagueei pelas ruas mais centrais, sentei-me em esplanadas, reentrei em restaurantes que há muito não visitava. Em todas as cidades por onde fui passando entrei em livrarias, mitigando a fome nunca saciada. Nos alfarrabistas da rua das Flores, no Porto, na Centésima Página, em Braga, na Traga-Mundos, em Vila Real, ou na livraria do Espaço Miguel Torga em São Martinho de Anta, reencontrei o perfume tão irresistível como aquele outro que me faz entrar em igrejas vazias.

Há dias, em pleno lay-off, estava na varanda relendo "A Capital", percorrendo o labirinto de luzes e equívocos que levou Artur Corvelo a abandonar a casa das tias velhas em Oliveira de Azeméis para deleite dos leitores de Eça, quando algo fez com que procurasse uma informação no Google. Essa busca levou-me ao blogue "Acontecimentos", criado pelo grande poeta brasileiro António Cícero que, com toda a probabilidade, nunca apanhou o comboio em Ovar. Na margem direita do blogue há uma foto de Cícero, registada por outro grande, Eucanaã Ferraz, de quem a Imprensa Nacional-Casa da Moeda editou, há poucos anos, a poesia reunida.

No início deste Maio, António Cícero publicou no blogue o poema "As livrarias", retirado de "A cidade e os livros". Lido com os olhos desse dia de maior confinamento, o poema deixava-nos desarmados à entrada de cidades proibidas. É um poema de oito versos: "Ia ao centro da cidade / e me achava em livrarias, /livros, páginas, Bagdad, /Londres, Rio, Alexandria: / Que cidade foi aquela / em que me sonhei perder / e antes disso acontecer / aconteceu-me perdê-la?"

Estas cidades que agora pude folhear de novo, como se as relesse em cada esquina, por que me abraçam e as abraço tão festivamente, ainda e sempre? Talvez a resposta esteja num outro poema de Cícero: "Todas as cidades encolheram, / são previsíveis, dão claustrofobia / e até dariam tédio, se não fossem / os livros incontáveis que contêm".

Amanhã, sem falta, vou à Barata.

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