Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

As mãos invisíveis

Juan José Florian foi levado para a guerrilha, ainda não tinha 15 anos. Recrutado pelas FARC, fizeram dele um dos milhares de crianças-soldado da maior tragédia colombiana.

As mãos dele poderiam ter amassado o pão ou tocado harpa ou merecido um poema como aquele que Drummond dedicou às mãos de Portinari. As mãos dele aprenderam a fazer o ponto de mira na selva colombiana mas, ao contrário das do pintor, não chegaram a saber "a cor da cor" nem a vestir "o nu e o invisível". Porque, certo dia, as mãos dele voaram, transformaram-se em fumo e em nada até aos cotovelos, à porta de casa de sua mãe.

Ele tinha fugido da guerrilha, entregara-se ao exército regular e, nesse dia, visitava a mãe a quem os das FARC extorquiam dinheiro sob ameaça. Tinha chegado uma encomenda que ele abriu. Era um embrulho armadilhado, os antebraços de Juan voaram em pó e sangue. O jovem soldado perdeu também uma perna e o olho direito.

Procurai, entretanto, as imagens dele sobre a bicicleta com que tentará alcançar uma medalha nos paralímpicos de Tóquio no próximo ano. É uma bicicleta adaptada, nas extremidades do guiador há uns receptáculos em que ele coloca os cotos. Lá vai, dobrado, cortando o asfalto, pedalando apenas com a perna esquerda. Um olho na estrada, o outro no buraco negro de uma tragédia pessoal.

Escolho, para o registo on line dos Sinais, a imagem registada por Raul Arboleda da France Presse durante uma sessão de exercício físico do campeão nacional colombiano de para-ciclismo. Há um tapete finíssimo no chão da casa e, sobre o tapete, uma manta na qual ele apoia os cotos. Não sei se posso ainda chamar cotovelos e esses pontos do corpo de Juan que perderam extensão, músculo e flexão, onde o úmero se perdeu do rádio e do cúbito para sempre. Esse sobre esses dois cotos que ele se ergue do chão, num esforço extremo, as veias do pescoço quase explodindo, o rosto congestionado. Um homem constrói, com o que lhe resta de corpo, um ângulo recto contrariando o peso do mundo. Com esse improvável ponto de apoio o seu corpo confirma a lei de Arquimedes. A alavanca com que levanta o mundo é a força a que não sabemos dar nome. A mão invisível de Juan José Florian. A "mão excedente" de que falava o poema de Drummond e que, de outro modo, revela, também, um espantoso "conhecimento plástico do mundo".

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de