Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

As oliveiras, ainda

Saramago teria gostado de ver o que há hoje entre as muralhas do castelo de Montemor-o-Novo. Teria gostado de ver as maravilhas operadas pelo arqueólogo Carlos Carpetudo que escavou o chão e afagou as suas tantas revelações tendo, entretanto, reconstruído virtualmente o pequeno mundo ali florescente antes de a grande sede ter afastado para mais perto dos veios de água os habitantes da vila. Não que o Paço dos Alcaides, onde foi decidida a demanda da Índia por mar, seja hoje mais do que ruína. É ruína consolidada, mas ruína, tal como Saramago a viu. E que podemos ver hoje, transpondo o portal manuelino da igreja de Santa Maria do Bispo? Podemos ver um arranjo de oliveiras, espécie de novas colunas torsas num templo panteísta. Não é um olival intensivo, nenhuma cisterna sugou para o alto Alquevas virtuais, é a notável linguagem que entrelaça pedras e árvores vetustas. São as belas oliveiras entre muralhas, em Montemor.

E, entretanto, em Pavia, Custódia Casanova leva-me pelas ruas de casinhas brancas onde os mais antigos ainda se lembram de Namora. A guardiã de Pavia mostra-me a igreja de São Paulo onde Carlos Maria Trindade acaba de dar um concerto memorável. E leva-me, sob o sol abrasivo, pela terra onde nasceu o pintor genial que morreu à fome. Palmilhamos a rua que atravessa a vila e que com a vila se poderia confundir nesses dias longínquos em que os homens esperavam no largo o olhar benévolo do empregador. Ela sabe de cor o início de "O Trigo e o Joio": "A vila é uma rua. Vem do alto dos eucaliptos pedindo licença à planície para lhe interromper o sono". E onde termina a rua? Termina junto às oliveiras, mais antigas que muitos castelos. Hão de vir técnicos da UTAD fazer datações das árvores talvez milenares, entre elas a oliveira "Aleixa". Conte, Custódia. E a guardiã de Pavia: "A oliveira pertencia a uma família de apelido Aleixo. Essa família era proprietária do forno da cal. Era a melhor cal do reino, no dizer do padre Carvalho da Costa. O rei Felipe II de Espanha decidiu levar daqui cal para o convento do Escorial. E então a Aleixa sentava-se na sapata da oliveira a contar os carros de bois que partiam daqui para Espanha". Custódia não sabe qual a idade exacta da oliveira da Aleixa. Mas tenho para mim que essa oliveira está ali de pedra e cal.

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