Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Azulejos

Lembro-me de ver no Museu de Lisboa um painel de azulejos representando uma mulher negra, talvez uma escrava. A mulher amanha peixes sobre a mesa. Só o seu rosto, a sua carapinha, os seus braços, as suas mãos entre faca e escamas, escapam ao azul e branco imperiais. Em redor da figura da mulher, os pequenos azulejos do painel revelam peixes de menores dimensões, vários outros animais e flores. O painel terá sido encontrado na parede interior de uma chaminé no Martim Moniz. Nesse dia, aquele rosto entre peixes voadores e figuras bizarras, impôs-me a sua serenidade magoada para sempre.

Lembro-me do painel de azulejos de Júlio Pomar, Alice Jorge, Carlos Botelho e Sá Nogueira tão maltratado na avenida Infante Santo. A peixeira com a canasta à cabeça, o pescador lançando a rede. Uma parede cheia de histórias erodidas pela negligência e pelo vandalismo.

Lembro-me dos azulejos da estação de S. Bento, no Porto. E dos da estação de Aveiro, a cidade em tantos lugares revestida com as maravilhas saídas da fábrica da Fonte Nova. E das casas de Ovar, a cidade que é, toda ela, um museu do azulejo a céu aberto.

E dos azulejos de padrão que cobrem milhares de edifícios, de norte a sul, com motivos tantas vezes trabalhados por grandes artistas, de Querubim Lapa a Cargaleiro, de Maria Keil a Eduardo Nery.

Por estes dias, demoro-me junto a altares de igrejas seguindo histórias de céus e infernos que os azulejos perpetuam.

Um pouco por todo o lado há, neste dia, gente olhando com menos pressa e melhor enquadramento os azulejos de Portugal. Devemos ao projecto SOS Azulejo, promovido pela Polícia Judiciária, a criação do Dia Nacional do Azulejo, que já leva quinze anos. É nesse quadro que alunos do liceu Camões de Lisboa visitam esta sexta-feira a Sala do Capítulo do Museu Regional Rainha Dona Leonor de Beja. São de uma beleza tocante os azulejos quinhentistas que lhes vão ser mostrados, a dois passos da janela de Mértola onde tanto se debruçou o coração de Mariana Alcoforado.

Que o dia lhes seja uma festa de luz. E que cada um de nós possa, entretanto, demorar-se, neste dia, diante de uma história contada em azulejos. Que o possamos fazer mesmo debaixo do chão. Se passares de metro no Alto dos Moinhos, diz um adeus ao Pessoa ou ao Almada ou ao Bocage que Júlio Pomar lá deixou para não estarmos tão sozinhos no cais.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de