Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Beijos, abraços e palavras em quarentena

Ontem, na praça de São Pedro, o Papa beijou várias crianças e apertou a mão a dezenas de pessoas que o saudavam, algumas usando a máscara com que acreditam proteger-se do vírus em expansão.

Perante o gesto do Papa e a sua defesa da "proximidade" com os doentes, lembrei-me de palavras recentes da directora-geral da Saúde aconselhando-nos a "socializarmos um bocadinho menos", a "não nos beijarmos tanto, não nos abraçarmos tanto". Nada que responsáveis clínicos do Queen Mary de Londres não tenham dito, considerando até que esse "distanciamento social" seria mais vantajoso do que o uso de máscara, dado que o vírus parece espalhar-se pela "respiração comum", o que quer que isso seja. É esta uma observação a reter pelos frequentadores de elevadores em hora de ponta. Eu retive outra, proferida por uma turista num dos canais de Veneza: "O pânico é mais contagioso que o vírus".

Entre as indicações dadas, nos últimos tempos, à população, está a de que não devemos "espirrar para cima de ninguém, quando se está doente, nem tossir para cima de ninguém". É essa uma indicação preciosa para todos os dias. Na verdade, não devemos espirrar para cima de ninguém, nem tossir para cima de ninguém, nunca.

Há dias, o Papa falou de um outro vírus, o consumismo. E disse que é chegado o tempo de renunciar a palavras inúteis.

Na verdade, como acaba de lembrar, na ARCO, em Madrid, o artista conceptual catalão Antoni Muntadas, "a sociedade degradou as palavras". Muntadas fala, por isso, em "infodemia". A palavra, esta palavra que nos alerta para a epidemia informativa, pode ser, ela também rapidamente contaminada. O designado "secretário de vigilância do ministério da Saúde" do Brasil acaba de usar esta precisa palavra "infodemia", sem máscara de protecção. O ângulo de alerta do responsável político do sector, lá no Brasil, é o de que "vivemos a epidemia em tempo real" enquanto as informações se tornam "perecíveis".

Que ao menos as palavras e os gestos do Papa possam contagiar a nossa cidadania em quarentena.

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