Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
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Bolsonaro e o senso leviano da ordem

Se uma carta em defesa do Estado Democrático de Direito recolhe cem mil assinaturas em vinte e quatro horas jamais será uma "cartinha", como se lhe refere Bolsonaro, porque se transformou em clamor.

As primeiras três mil assinaturas da carta surgida por iniciativa de ex-alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo são de juristas, empresários, agentes culturais, banqueiros, que retomam o espírito da célebre carta aos brasileiros lida, há 45 anos, pelo professor de Direito Godofredo Telles Junior, no largo de São Francisco. Era o tempo da ditadura e essa carta, lida perante uma praça cheia de estudantes e gente do povo, discorria sobre a Ordem, o Poder e a Força, constatando a existência do que era designado por senso leviano e, em contraponto, o senso grave da ordem.

Sustentava que toda a lei é, obviamente, legal, mas nem sempre legítima. E propunha: "Deixemos de lado o que não é essencial, saibamos distinguir entre o legal e o legítimo".

O poder da época, ditatorial, amante do senso leviano da ordem, esmerou-se na força bruta mas não mostrou a brutalidade fraca dos argumentos fúteis. Não fingiu ser o que não era. Não considerou cartinha o clamor a que o professor Godofredo deu voz no pátio das arcadas do largo de São Francisco.

45 anos depois, empresários, juristas e artistas erguem-se contra ataques infundados do ainda presidente da República do Brasil à lisura do processo eleitoral e do Estado Democrático de Direito "tão duramente conquistado pela sociedade brasileira".

Reclamam-se do mesmo espírito livre que animou a carta de 77, em plena ditadura, e conclamam os seus concidadãos a ficarem alerta "na defesa da democracia e do respeito pelo resultado das eleições".

Bolsonaro minimiza. "É uma cartinha". E eu lembro-me da Carta-Poema de Manuel Bandeira, dirigida ao "Excelentíssimo Prefeito, Senhor Hildebrando de Góis", pedindo vistoria ao pátio onde vivia e que, no seu entender, tanto o lixo para lá lançado, fazia "a vergonha da República/ junto à Avenida Beira-Mar". Ao considerar que o documento dos cem mil é "uma cartinha", Bolsonaro não toma para si a cadeira do Excelentíssimo Prefeito Hildebrando de Góis. Antes se coloca no lugar daqueles que confundem pátio com via pública, para lá lançando "todo o seu lixo", "tripas de peixe/ cascas de fruta e ovo, papéis". Eis o senso leviano da ordem de que falava a carta de 77.

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