Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Breves notas para uso de aporófobos

Há dias, em entrevista ao Público, a propósito do lançamento do livro "Outra Vida para Viver", Theodor Kallifatides sustentou que há uma guerra contra os pobres e não contra a pobreza". O filósofo greco-sueco chega a antever uma revolta dos pobres.

Falando na Bienal do Livro de São Paulo, durante a apresentação do livro "Tinha uma Pedra no Meio do Caminho: Invisíveis em Situação de Rua", o padre e pedagogo brasileiro Julio Lancellotti considerou que a especulação imobiliária é o verdadeiro governo das grandes cidades. E deixou lavrado que "muitos dos condomínios de São Paulo estão a transformar-se em milícias contra os pobres". O padre chamou para a conversa o conceito de aporofobia, criado pela filósofa espanhola Adela Cortina. Há quem tenha aversão aos pobres como se tem aversão às aranhas. Do medo ao ódio, num ai se tece a teia. Os aporófobos deveriam matutar naquele provérbio africano que Mia Couto cita n'"A Confissão da Leoa": "Quando as teias de aranha se juntam, elas podem amarrar um leão".

O Papa tem chamado a atenção para a pobreza que mata. Na Fratelli Tutti é lançado um apelo a que se concebam políticas sociais que vão além da ideia de uma política para os pobres. É que as políticas conhecidas nunca são políticas com os pobres. Nunca são políticas dos pobres. Os pobres não são chamados a definir políticas sociais que os possam retirar da pobreza. Caso contrário, talvez essas políticas fossem mais bem sucedidas do que programas que os mantêm na pobreza, na terra de ninguém da invisibilidade.

Tudo isto me ocorreu ao ler a resposta de Joaquim Oliveira Caetano, director do Museu Nacional de Arte Antiga, ao questionário de Proust adaptado pelo DN. Interrogado sobre quais são os seus heróis da vida real, ele respondeu: "Os pobres em busca de uma vida digna são os grandes heróis de todos os tempos e lugares".

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