Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Caldo de Gloria, talhadas de melão

Na passagem dos 183 anos do nascimento de Rosalía de Castro, assinalados ontem, vários municípios galegos, desde a sua Santiago natal até Padrón, onde morreu, homenagearam a autora de "Cantares Galegos" com iniciativas diversas, percorrendo os lugares que marcaram a sua vida e a sua obra, promovendo a leitura pública dos seus poemas, realizando concertos musicais, oferecendo flores, recriando rotas turísticas, provando e dando a provar o "Caldo de Gloria" que ela descreveu no poema "Minha casinha, meu lar".

Sublinho que não se assinalava uma data redonda, passavam os 183 anos do seu nascimento.

Em Padrón, na Casa de Rosalía, sentiu-se de novo o cheiro a caldo. O grande chef galego José Antonio Rivera apresentou uma receita actualizada do caldo cantado por Rosalía, usando ingredientes que não fazia parte da sopa dos duros tempos da sobrevivência. A receita original do Caldo de Gloria que perfuma o poema de Rosalía foi há tempos definida por Manuel Maria Puga y Parga, um dos mais famosos gastrónomos galegos. "O caldo galego típico, o enxebre",explicou Puga y Parga, "reduz-se, singelamente, a uma mistura de batatas, feijão, verdura e banha de porco, nada mais".

Se passarmos os olhos pela imprensa galega, ficaremos com uma ideia da importância e da dimensão desta grande celebração de Rosalía. Ao servirem um café com versos de Rosalía, os restaurantes de Ames, Brión, Padrón, Santiago, enaltecem a "terra" cantada pela voz mais poderosa do Ressurgimento, as "hortinhas" que ela tanto amava, as "figueiras" que plantou.

É inevitável que me ocorra a passagem, esta terça-feira, do aniversário do nascimento de Cesário Verde, aquele a quem o Caeiro chamou "camponês que andava preso, em liberdade, pela cidade".

Há precisamente 165 anos, o filho de abastado lavrador e comerciante de ferragens, nascia para uma vida curta, ceifada pela tuberculose. Não consta do noticiário avulso que os cafés da zona da lisboeta Madalena, ou de Linda a Pastora, onde procurou melhores ares, ou do Lumiar, onde morreu, distribuam versos seus na chávena da bica. Ou que o município ofereça, pela tarde, em improvisados piqueniques, "talhadas de melão, damascos / e pão de ló molhado em malvasia". Que ao menos as matrafonas, tão procuradas pelos mirones e pelas televisões, usassem ao peito, neste dia, em memória dos antigos saloios do termo de Lisboa, rompendo a renda de dois seios, mesmo de plástico, "o ramalhete rubro das papoilas"...

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de