Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Carlos Amaral Dias

Durante aquele ano e picos falámos muito da morte. E do medo. Mas demos, também, colossais gargalhadas.

Passaram vinte e cinco anos, a vida levou-nos por diferentes veredas. Mas ficou dele, em mim, muito mais do que um tremendo apego à vida e à sua celebração. Ficou o cerimonial da palavra, o seu espanto e a sua fundura, iluminando o estúdio. Uma liturgia irrepetível fez dos antigos estúdios desta rádio, lugares onde se pudesse morrer, de repente, de um estoiro no coração ou de uma alegria sem freio.

Deixai que recupere as linhas breves do texto que escrevi para o livro "Avenida de Ceuta, n.º 1" com que a Relógio de Água transcreveu as nossas conversas no programa "A Espuma dos Dias", nos idos de 90: "Às sextas-feiras, ele chega cinco minutos antes do início da gravação. A chegada dele é sempre festiva, muito ruidosa. Abraçamo-nos como se viéssemos de um lugar distante. E damos intermináveis gargalhadas. Aí está uma das razões por que eu gosto de Carlos Amaral Dias. É um homem que ri. Há, também, claro, uma correnteza de afinidades acumuladas: a paixão pelo problema, pela incerta vadiagem da vida e do mundo, pelo sabor único do Bushmils, por Debord e Vaneigem e Herberto e mais uns quantos que se atravessaram um dia, inesperadamente, na conversa de almoço que Mário Pereira, outro companheiro de mil aventuras, organizou para que nos conhecêssemos".

Ele chegava, eu tirava da gaveta recortes de jornais, papéis gatafunhados, nada de guiões acertados e sentávamo-nos a fumar e a beber enquanto a conversa corria na fita. Era o tempo da fita, na rádio. Muitas vezes, o fumo dos nossos cigarros fazia disparar, naqueles quarenta e cinco minutos tão intensos, o alarme do estúdio da Avenida de Ceuta. O segurança dava dois toques resignados no vidro do estúdio não podendo saber que outros alarmes haviam soado. Foi nesse ambiente de névoa amável que ele me alertou para a opacidade dos que a todo o tempo reafirmam uma posição clara sobre o que quer que seja. O sábio que eu tinha no estúdio aconselhava a que desconfiássemos desses. E de quantos, após uma pergunta mais incisiva, ganhavam tempo dizendo: "Ainda bem que me faz essa pergunta". "Quando dizem isso", lembrava Carlos Amaral Das, "estão irritados com a pergunta". Foi ele que me falou pela primeira vez de Bion. Referia-se com frequência a D. Duarte, o do "Leal Conselheiro", que considerava "o primeiro psicólogo português" e de quem citava um texto magnífico sobre a saudade. E a todo o instante nos chamava para Shakespeare ou para o que o olhar dos outros, o olhar que nos vê, nos devolve de nós próprios. Lembro-me de um programa sobre o olhar. O programa partia de uma frase de Sartre: "O olhar do outro tira-me a liberdade". Foi nesse programa que o erudito desconcertante citou um provérbio espanhol que nunca mais esqueci: "O louco que vês não é louco porque o vejas, é louco porque te vê". Foi isso numa emissão em que comentou as luzes intensíssimas dos novos estúdios da Avenida de Ceuta. Ele sabia que eu preferia os estúdios mergulhados em penumbra, com uma pequena luz de presença. Mas sossegou-me, inquietando-me: o nosso olhar "não precisaria de meia luz para ser sempre midriático, ou seja, sempre dilatado". Quando o meu olhar larga a mão da minha vontade e vai adiante ou fica especado no espanto do mundo, eu penso nele. No sábio que ria. Vou ter ainda mais saudades dele e muita pena de não lhe ter dito que deixei de beber Bushmils, mas não perdi a sede.

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