Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Catástrofe moral

O jornal El Pais escreve na edição de hoje que "África fica para trás" no objectivo de vacinar a população. Várias circunstâncias explicam este atraso que pode comprometer a imunidade de grupo no prazo desejável.

A Organização Mundial de Saúde e os Centros africanos para o Controlo de Doenças já as identificaram: falta de recursos financeiros, debilidades logísticas e resistência de sectores da população mais permeáveis à desinformação.

Por tudo isto, a responsável da OMS pela introdução de novas vacinas em África considera irrealista a ideia de que 60% da população africana seja imunizada no prazo de um ano, sublinhando que seriam necessários 9.800 milhões de euros que não existem. Os governos africanos não têm recursos financeiros, enquanto os países ricos do norte assinam acordos com as grandes farmacêuticas, acautelando muito mais do que as necessárias provisões. As Nações Unidas calculam que, em Março, apenas 3% dos africanos estarão vacinados e isto explica que o director dos Centros Africanos para o Controlo de Doenças tenha falado, há dias, em "catástrofe moral". Esse dirigente considera inexplicável que os africanos lutem pelo acesso a vacinas que os países ricos acumulam em armazém.

Há dias, o padre Tony Neves, que coordena, em Roma, o gabinete de Justiça e Paz de uma congregação missionária presente em vários países africanos, partilhou com a Agência Ecclesia relatos inquietantes que chegam do continente tão esquecido nas notícias.

Ele sublinha que a chegada da covid veio agravar a fragilidade de um sistema já abalado pelo combate à malária ou ao Ébola e que a situação só se resolverá "quando a vacina funcionar para todos". Os avisos do missionário não se dirigem a um vago Norte desenvolvido, são particularmente endereçados à presidência portuguesa da União Europeia. Ele acredita que o facto de Portugal sempre ter sido "um país de ponte" pode ajudar outros europeus, menos abertos ao resto do mundo, " a abrir o coração e as mãos e a fazer com que a vacina chegue a todos". Vão nesse sentido, igualmente, recentes apelos do Papa.

O missionário português conta que quase todos os dias lhe chega o eco da desinformação que varre o continente africano. As notícias que recebe do terreno dão conta de um sentimento de medo instalado, fruto da vulnerabilidade criada pela poderosa máquina de desinformação.

Entretanto, na arrumação mediática do mundo, a norte, África faz poucas manchetes. É como se, a cada sinal de alarme e pedido de ajuda vindo do sul, o norte respondesse: "Estamos confinados, liguem mais tarde".

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