Sinais

"Sinais" nas manhãs da TSF, com a marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos paradoxos, das mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à atualidade.
De segunda a sexta, às 08h55, com repetição às 14h10.

Cerejas e abraços para Fernando Paulouro

Converso na Covilhã com Fernando Paulouro Neves que dirigiu o Jornal do Fundão nos seus dias de glória. Fernando recorda as crónicas da série A Bagagem do Viajante, publicadas por Saramago no Jornal do Fundão no início da década de 70. Uns anos depois, o escritor regressa à Cova da Beira. Vai a meio a sua Viagem a Portugal e Saramago confessa que dormiu mal no Fundão onde o sono lhe foi sobressaltado pelo fantasma de José Junior. Não chegara a ver o rosto desse homem por causa do qual se obriga a visitar São Jorge da Beira, nos contrafortes da serra. Saramago recorda que a crónica tratava de um caso que o chocara e do qual tivera conhecimento por uma breve de jornal. Sobre o caso escreveu a dita crónica cujas linhas gerais recupera na Viagem a Portugal. Ao passar por aqui lembrou-se desse homem que morrera no hospital e foi tomado por uma espécie de urgência reparadora em nome da qual quis conhecer as ruas do lugar onde José Junior foi humilhado. Não encontrou o fantasma de Junior mas deixou a sugestão, ainda incumprida, de que dessem os de São Jorge da Beira o nome de uma rua a um filho da terra por eles maltratado. À volta Saramago almoçou no Fundão, foi ver o Chafariz das Oito Bicas, o cruzeiro da capela de Nossa Senhora da Luz, o altar-mor da Igreja Matriz, onde apreciou os painéis pintados no tecto, e seguiu para Donas. Mas haveria de voltar. Fernando Paulouro Neves (que, depois do magnífico O Informador e Outros Contos, prepara um romance cuja figura central será um antepassado de Pessoa levado à fogueira pela Inquisição) lembra-se de quando Saramago veio com Isabel da Nóbrega e Manuel da Fonseca a um colóquio no Casino Fundanense. Centenas de pessoas enchiam a sala. Manuel da Fonseca comentou: "Ó Zé, isto é formidável, estarmos aqui a conversar com as pessoas". E Saramago respondeu: "Estamos aqui quantos? Trezentos, quinhentos? Mas quantos é que, na realidade, nos leem?"

A pergunta de Saramago povoa as súbitas saudades que tenho de Manuel da Fonseca. Vou como um maltês feliz por esta dobra da Gardunha que Diamantino Gonçalves continua a fotografar admiravelmente. Levo cerejas na bagageira. Até breve, Alcongosta. Até sempre, Castelo Novo.

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