Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Chuvas antigas, trovoadas secas

Fez ontem cinquenta anos, o céu desabou sobre os Estados de Pernambuco e Alagoas. Na cidade de Caruaru, até os cangaceiros de barro e os caçadores de onça saídos das mãos do já falecido mestre Vitalino estremeceram nas vitrinas. Em Caruaru, tudo é em grande. A feira de Caruaru, cantada por Luis Gonzaga, é uma das maiores do mundo ao ar livre. A beleza do lugar é tamanha. Por alguma razão, Caruaru tem sido considerada "Princesa do Agreste" e capital do forró. Tudo é em grande, também a chuva. Também a seca.

Em Aparica, na vizinha Alagoas, mais de quatro mil pessoas tinham saído à rua em procissão pedindo um préstimo de chuva que fizesse renascer os pastos e salvasse o gado. A santinha fez chorar a nuvem diluviana e logo se falou em milagre.

Nesse domingo de 21 de Julho de 1970, cinquenta anos precisos antes de um outro jogo só acontecido porque autoridades judiciais legitimaram o arrombamento das portas do estádio, o céu desatou os nós de uma chuva torrencial sobre o Estado de Pernambuco. Os jornais contaram 15 mortos. Quatro dias de chuva torrencial ininterrupta, mas isso não impediu o jogo entre os Gigantes e o ABC. Nesse tempo, não havia SAD, havia sede e fome que o futebol matava para alegria do povo. Ainda não tinham surgido estratégias para matar o futebol.

Por isso, lá em Caruaru, o jogo foi jogado, venceram os da casa por 6-2, sem que os visitantes lançassem sobre os factos e os procedimentos qualquer suspeição. Não consta que tenham desaparecido as chaves dos autocarros dos clubes. Apenas o árbitro não usou o apito. As notícias desse 21 de Julho de há 50 anos contam que, por temer que a chuva torrencial abafasse o som do tradicional apito, "o juiz decidiu arbitrá-la de automóvel", usando a buzina para assinalar as faltas. No fim, os jogadores consideraram que a actuação do árbitro, percorrendo de automóvel a faixa lateral, foi competente e isenta.

Cinquenta anos passados, estando o país sob trovoadas secas, António Freitas, o presidente de um clube português armadilhado pela própria SAD, conquistou o direito de afirmar, entre lágrimas: "Salvámos o futebol nacional de uma vergonha". O capitão da equipa explicaria, entretanto, o magnífico gesto dos jogadores no início da partida, aquele minuto em que onze homens ficaram parados em campo, assim reclamando o direito a jogar: "Queriamos sensibilizar a Liga, a Federação, o Sindicato, para que vissem bem este caso", disse o capitão do Aves. "Um país que é campeão europeu, que tem o melhor jogador do mundo, os melhores treinadores do mundo, não merece passar por isto".

Aqueles a quem cabe fazer desabar sobre este lamaçal uma trovoada seca e ainda assim mantêm, face a esta vergonha, uma inexplicável inacção, estão a precisar que alguém lhes faça um boneco de barro, não propriamente na linha de mestre Vitalino.

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