Sinais

Os "Sinais" nas manhãs da TSF, com a sua marca de água de sempre: anotação pessoalíssima do andar dos dias, dos seus paradoxos, das suas mais perturbadoras singularidades. Todas as manhãs, num minuto, Fernando Alves continua um combate corpo a corpo com as imagens, as palavras, as ideias, os rumores que dão vento à actualidade.
De segunda a sexta, às 08h55 e 14h10

Da arte de desossar o cachaço

É o problema da linguagem, ó senhor do talho. A linguagem a pontapé paga-se com língua de palmo. Da linguagem podemos extrair pérolas, em tendo para tal a arte com que um bom talhante extrai, da chã de fora, o ganso redondo. Já o Saint-Exupéry lembrava que a linguagem é uma fonte de mal entendidos. E, contudo, quase tudo pode ser dito, em sendo bons cortadores de frases. É um pouco como desossar o cachaço: tem a sua arte.

Em tempos, um tal O'Neil perguntou, num poema: "Porque não há padarias que em vez de pão nos dêem seios, logo pela manhã?". É um verso magnífico. Mas não ocorre senão a um tolo que a padaria de Santo Ovídio ponha, um dia destes, na montra, cartazes com maminhas ao léu para publicitar os papo-secos. Isso corresponderia a baixar a fasquia da linguagem muito abaixo do mal entendido. Seria descer à desfaçatez com que, em miúdos, parávamos à porta do talho lá do bairro e perguntávamos ao senhor do balcão: "Tem cabeça de vaca? E mão de porco?". Exageros de miúdos incapazes de distinguir o acém do chambão.

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